Ser-cristão é ser-político (I): uma polis de toda a gente: e por que não?

A razão do nosso estar-no-mundo é fazer desta Terra Reino de Deus. E - nessa tarefa – aprofundar de coração a busca de Deus, em nós e no mundo. O apelo vem desse horizonte de Transcendência para a vida terrena que vivemos.

 

 

           Algumas pessoas vêm as coisas tal como existem e dizem: porquê?

Eu sonho com coisas que nunca existiram e digo: por que não?

–  Bernard Shaw –

 

1. As palavras do dramaturgo britânico em epígrafe, como estrela a guiar este texto, apontam dois modos de olhar a vida – a nossa e a do lugar onde escolhemos ou nos coube viver.

A primeira interrogação formula o espanto, a curiosidade, perante o que existe no mundo: o que há de belo e bom, de problemático e absurdo, pretendendo ‘entender’ o seu “porquê”, sem necessariamente agir mais do que pelo discurso. É o campo da filosofia. Mas, pode ser também e apenas a posição conformista e cómoda de um não-agir.

Contudo, ao observar interrogativamente o que nos rodeia – no universo, na natureza, nas sociedades, no mundo em geral -, a pergunta pode ser outra, imaginando também o que poderia existir: e “por que não?” É uma pergunta desafiadora  de inovação, de mudança, para procurar criar, a qualquer nível, algo diferente e melhor, para a vida humana e a do Planeta. Assim, nas ciências, tal como nas tecnologias mais diversas, essa segunda proposta de Shaw, já por si reveladora de insatisfação com o estado das coisas, pressupõe uma análise crítica daquilo que existe e ao mesmo tempo ergue hipóteses de novas possibilidades e descobertas. Foi esse posicionamento que permitiu os enormes avanços técnico-científicos que a Humanidade conseguiu e que poderá ainda atingir.

No entanto, esse sonho do que poderia existir manifesta-se também, e cada vez mais, em acções autocentradas, egoístas, motivadas apenas pelo lado mais material da vida. Levados por uma ganância cega e desmedida (ganância individual, familiar, corporativa), alguns de nós, humanos, colocam-na sem escrúpulos muito à frente do bem comum. No actual contexto económico e financeiro – e têmo-lo presenciado em todo o mundo -, deparamos com movimentos financeiros feitos na sombra, anónimos, sem se olhar a meios nem a consequências para outros. Isto tem permitido um crescimento exponencial da riqueza só para alguns (aqueles a quem Shakespeare chama os happy few), em detrimento da pobreza da maioria da população mundial: 1% desta detém poder e posse de metade da riqueza de todo o Planeta.

2. Basta estar-se interiormente disponível para que, no simples levantar de um avião, vendo a Terra de cima, se tome consciência da nossa própria pequenez no Planeta e, mais ainda, no Universo sem fim. Com a dimensão dessa perspetiva, tudo adquire uma proporção mais certa: deixar de considerar-se (eu, nós, família, empresa, negócios, país, continente) uma espécie de ‘centro do mundo’. É-se levado a perguntar pelo destino conjunto e final desta esfera, a Terra que habitamos, e os seus mundos. Com facilidade se poderá admitir a existência de outro Horizonte, amplo e de sentido transcendente, percebendo que ninguém tem em si a razão e o sentido da sua própria existência. É que os humanos são seres ‘descentrados’, com o centro do Sentido fora de si. Isso mesmo terá Fernando Pessoa querido significar ao escrever, no seu Livro do Desassossego: “Deus é nós existirmos e isto não ser tudo”. 

3. No pensamento do cientista e jesuíta francês Teilhard de Chardin, existem à volta da Terra várias camadas envolventes (atmosfera, biosfera, etc.). Uma delas, a noosfera, como Teilhard a designa, será o magma humano a partir do qual cada ser humano faz um processo de individuação. Somos, à partida, um conjunto e não a soma de partes ou de indivíduos. Nessa perspetiva, surgimos na Terra de uma camada indiferenciada, a Humanidade, que nos liga uns aos outros enquanto seres humanos. Daí que ab initio sejamos responsáveis uns pelos outros. Filósofos contemporâneos como Emmanuel Levinas, Hans Jonas, fazem essa afirmação ética radical (algo contraditória com a da Revolução Francesa): a responsabilidade humana precede ontologicamente a liberdade individual. A responsabilidade pelo ser do outro e suas condições de vida passa à frente da própria liberdade. Ainda em termos de Levinas, o rosto do outro apresenta-se-nos, solicitante, e há que dar-lhe resposta. O outro – qualquer outro – exige de nós, pois, antes de mais, cuidado, com-paixão, solidariedade.

Na China dos sécs. VI-V antes de Cristo, Confúcio propõe o que virá a ser considerado uma ‘regra de outro’ (hoje retomada pelo Parlamento das Religiões Mundiais, iniciativa do teólogo católico Hans Küng). É a regra da “reciprocidade!”: “não fazer aos outros o que não queremos para nós”.

Séculos depois, Jesus convidará a ir ainda mais longe: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, isto é, dar a própria vida pela vida do outro. Árduo convite. Contudo, a Humanidade (religiosa, ateia, agnóstica) encontrará eventualmente mais felicidade se livremente seguir por esse caminho.

4. Em termos políticos, o que significa isto especificamente para os cristãos?

A razão do nosso estar-no-mundo é fazer desta Terra Reino de Deus. E – nessa tarefa – aprofundar de coração a busca de Deus, em nós e no mundo. O apelo vem desse horizonte de Transcendência para a vida terrena que vivemos.

Trata-se de um horizonte que desassossega e inquieta o nosso modo de viver, desafiando cada pessoa a contribuir para a garantia de qualidade de vida, de igualdade de oportunidades e de direitos e deveres para todos, sejam eles quem forem: diferentes sexos, etnias, nacionalidades, religiões, classes sociais, opções políticas. Isto é eticamente vinculativo em relação a quem vive a nosso lado, a quem vem ao nosso encontro, a quem a globalização traz para perto de nós – tanto em presença real (refugiados, imigrantes) como a quem pela net e a TV hoje conhecemos, através do acesso às diferentes situações.

E a afirmação de S. João na ‘Primeira Carta’ não deixa dúvidas: “Se não amamos o nosso irmão a quem vemos, como podemos amar a Deus a quem não vemos?” (1 Jo 4,20)

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.