A sucessão de Francisco é um tema

No mais global Conclave vão sentar-se, lado a lado, cardeais com profundas diferenças pastorais e de mundividência, que expõem a urgência de uma voz simbólica, com capacidade de mediação entre pólos com interesses antagónicos.

Porque não é um edifício monolítico e nenhum Papa tem a unanimidade das expectativas, a Igreja católica vive sempre em “pré-conclave”, em ambiente de comentários e conversas de corredor sobre o futuro. São históricas as diferenças na sensibilidade pastoral e respetivos focos doutrinários.

1. Há ainda duas visões de Igreja, que, resumidamente, podemos entender no incessante debate em volta do poder institucional sobre os bens temporais e intemporais. Uma visão mais piramidal, que ganha forma numa estrutura clericalizada, normativa, controladora da doutrina e dos costumes, da tradição e administração, no princípio de uma obediência que não se discute. Outra visão mais horizontal, criativa e sintonizada com a realidade, com a vida concreta das comunidades e crentes, que, sem negar a legitimidade apostólica e o enquadramento doutrinário, estabelece a corresponsabilidade comunitária, a misericórdia como instrumento de acolhimento, propondo uma harmonia relacional e estrutural entre os vários carismas e vocações ministeriais, sem que um seja mais importante do que outro, mas todos se revejam, em igualdade, no batismo.

Dito de outra forma, entre um “retrocedismo”, usando uma palavra do próprio Papa Francisco, e o pragmatismo evangélico, ou seja, entre uma Igreja que entende a normalização como se fosse o próprio evangelho, não admitindo, assim, mudanças, e uma Igreja que entende o evangelho como um vasto campo aberto à realidade e sinais de cada tempo, na interpretação discernida de cada tempo, em aggiornamento, como sugeriu o Concílio Vaticano II e já intuía o cristianismo protestante ao afirmar que a Igreja está sempre em reforma.

Às vezes com marés violentas, a Igreja católica tem conseguido navegar entre estes dois pólos: um que tende a criar processos rigoristas de fechamento e segregação, com insanáveis paradoxos, e outro que procura abrir portas e congregar, sujeito a equívocos.

2. Com 12 anos de pontificado, não é difícil perceber em que espaço se posiciona o Papa Francisco. É com ele que as dimensões da Misericórdia, da Fraternidade e da Esperança atravessam as barreiras religiosas para ganharem uma dinâmica mais universal e inclusiva. Com Francisco não há mais evangelho e menos doutrina, nem menos doutrina do que havia com os antecessores. O que há é um reposicionamento pastoral da reflexão doutrinária. A teologia está ao serviço da realidade pastoral. A montante – como nascente de um rio que pode, ao longo do seu percurso, ter impacto na vida e na leitura do mundo – não está uma legislação doutrinária, mas uma “boa nova” – o evangelho e as contingências dos primeiros apóstolos – incorporada na comunidade de crentes, com tudo o que isto implica nas pragmáticas possibilidades de ação missionária, em diversidade e construindo pontes.

No processo sinodal, Francisco vê-se como pastor que segura as duas pontas de uma multidão que caminha junta. Como ele disse em entrevista emitida em 2022 na TVI e CNN Portugal, há os que seguem à frente, a abrir caminhos novos, e os que vão atrás, por não conseguirem ou não quererem acompanhar o ritmo dos mais apressados. O bom pastor, entende Bergoglio, vai no meio, a pedir aos da frente para que abrandem um pouco e a puxar os que vêm atrás, para que não fiquem pelo caminho. Na hora de (re)pensar a escolha de um Papa, este é um fator a ter em conta…

3. Se os recém lançados temas sinodais estiverem processados, o sucessor de Francisco apenas terá de dar um persistente e firme seguimento à respetiva aplicação, ficando disponível para os tremendos desafios culturais, políticos e antropológicos na Igreja, expectáveis no curto e médio prazo, desde a Inteligência Artificial, que amplia a secularização, ao neoliberalismo global e anónimo, impulsionador de novas guerras pelos recursos naturais, com consequências dramáticas nos movimentos migratórios e nas vivências comunitárias religiosas.

A última década, particularmente os últimos conflitos, revelam um cada vez menor peso do consórcio das Nações e a perda de influência da diplomacia vaticana. Sobra, como aspeto intransmissível da Igreja católica e demais confissões cristãs, a defesa das causas evangélicas e das relações redimidas em corpo presente, a defesa da ecologia integral e sustentável, o combate à pobreza causada pelas desigualdades sociais, o exercício de pontes onde o entendimento parece impossível, o diálogo intransigente e criativo na construção da paz, juntando lideranças religiosas para reforçar que não é lícito fazer a guerra em nome de Deus.

Os cardeais serão chamados a escolher um Papa com perfil transversal, alguém que siga a visão ousadamente lúcida de João XXIII, a perspicácia mediadora de Paulo VI, o carisma contagiante de João Paulo II, a firmeza de Bento XVI, o discernimento pastoral e coerente de Francisco, que, na continuidade, foi capaz de introduzir conceitos como Fraternidade, Misericórdia e Esperança em insuspeitos espaços de debate político, social e ideológico.

Neste novo mundo, os cardeais serão chamados a escolher um Papa com perfil transversal, alguém que siga a visão ousadamente lúcida de João XXIII, a perspicácia mediadora de Paulo VI, o carisma contagiante de João Paulo II, a firmeza de Bento XVI, o discernimento pastoral e coerente de Francisco, que, na continuidade, foi capaz de introduzir conceitos como Fraternidade, Misericórdia e Esperança em insuspeitos espaços de debate político, social e ideológico.

Se a prioridade for precisamente o papel e a presença da Igreja e da fé cristã no mundo, não será de estranhar que apontem para um europeu ou um asiático, com forte sensibilidade diplomática, capaz de gestões sensíveis, consideradas impossíveis, e, simultaneamente, de firme vocação pastoral no desenvolvimento humano, na cultura, conhecedor dos desafios virtuais e pós-digitais, familiarizado e sintonizado com a dinâmica sinodal, intransigente na continuação do legado de Francisco, ou seja, dando fôlego a uma Igreja “em saída”, atuante nas “periferias”, inflexível no combate à pobreza e à injustiça social.

Bem podem e devem invocar a influência do Espírito. Vai ser uma tarefa hercúlea.

No mais global Conclave vão sentar-se, lado a lado, cardeais com profundas diferenças pastorais e de mundividência, mas a origem geográfica não terá tanta relevância quanta a que algumas análises fazem crer e o imprevisível cenário geopolítico expõe também a urgência de uma voz simbólica, com capacidade de mediação entre pólos com interesses antagónicos, internos e externos.

Cada Conclave tem a sua circunstância. Um Papa europeu, de e para o mundo, preencheria este perfil? Serão os cardeais sensíveis a este critério, que, na verdade, é mais do que meramente geográfico?

Nota final: As congregações gerais, reuniões do colégio cardinalício que antecedem o Conclave, desenham o perfil de um novo Papa. Sem sabermos quando, a sucessão de Francisco é um tema no debate sobre o modo de ser Igreja e a intervenção desta perante os sinais do tempo. E se, na sequência do recente dinamismo sinodal, as comunidades de base fossem escutadas na reflexão dos cardeais eleitores até à clausura da grave decisão?

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.