Ver novas todas as coisas em Cristo – Condições para um olhar inocente

Será, sobretudo, um modo de olhar, que começa por dizer o lugar existencial e espiritual de onde se olha e a qualidade da luz que se projeta sobre a realidade. Em Cristo – como Cristo –, todas as coisas se verão de forma inocente, justa.

Será, sobretudo, um modo de olhar, que começa por dizer o lugar existencial e espiritual de onde se olha e a qualidade da luz que se projeta sobre a realidade. Em Cristo – como Cristo –, todas as coisas se verão de forma inocente, justa.

Este texto serviu de base à apresentação que o P. José Frazão Correia, sj fez, em dezembro, na Sessão de Estudos de Espiritualidade Inaciana. É um texto longo, profundo e denso, cuja leitura se recomenda que seja faseada e refletida, como forma de melhor acolher o que aqui se apresenta. O Ponto SJ disponibiliza também a versão vídeo desta conferência (aqui e no final do texto), que foi filmada pelos alunos da OFICINA. Note-se que o texto foi revisto à posteriori, pelo que não é uma simples transcrição do que foi dito.

 

Motivo e programa

Afirma Aristóteles, na Retórica, que «as coisas não parecem as mesmas a quem quer bem e a quem odeia, nem a quem está irado ou a quem se encontra num estado de calma, mas aparecem totalmente diferentes ou em grande parte [diferentes]» (1377 b 30).

Jesus, segundo o evangelista Mateus, adverte: «a luz do teu corpo são os olhos. Por isso, se o teu olhar for bom, todo o teu corpo tem luz. Mas se o teu olhar for mau, todo o teu corpo fica às escuras. Ora se a luz que há em ti não passa de escuridão que grande será a tua escuridão!» (Mt 6, 22-23).

Tomo este duplo motivo como ângulo de observação do tema genérico ver novas todas as coisas em Cristo. As condições de possibilidade para um olhar inocente, justo, quer ao nível pessoal, quer ao nível eclesial, serão, aqui, o foco de atenção. Em quatro pontos, começo por apresentar o essencial do programa a que me proponho, antecipando já, de forma sintética, as principais conclusões.

Não vemos o que devemos ou o que queremos, mas o que podemos. Se as coisas não parecem as mesmas a quem quer bem e a quem odeia, a quem está irado ou a quem se encontra num estado de calma, como afirma Aristóteles, e se a luz dos olhos poderá ser escuridão, como adverte Jesus, as condições do sujeito que olha – condições afetivas, intelectuais, culturais – interferem, condicionam e poderão mesmo determinar o olhar que temos sobre a realidade. Fazem-no de tal modo que, como adiante se dirá, não olhamos imediatamente o que devemos olhar, respeitando a objetividade e a particularidade das coisas que nos chegam à vista, quando são iluminadas pela luz; não olhamos simplesmente o que queremos, como se olhar deste ou daquele modo fosse simplesmente fruto da nossa vontade e determinação subjetiva; olhamos, sim, o que podemos, aquilo que as nossas condições pessoais determinam e que a nossa experiência permite que olhemos.

Se for certo que não vemos o que devemos, nem o que queremos, mas o que podemos, “ver novas todas as coisas” orienta-nos para as condições de possibilidade desse olhar – ou de limitação, ou, mesmo, de impossibilidade – e para a experiência que permite, dificulta ou impede essa capacidade de ver todas as coisas novas.

Com este ângulo de visão, desvio-me intencionalmente de um certo imediatismo ou voluntarismo a que o mote “ver novas todas as coisas em Cristo” poderia induzir. Se for certo que não vemos o que devemos, nem o que queremos, mas o que podemos, “ver novas todas as coisas” orienta-nos para as condições de possibilidade desse olhar – ou de limitação, ou, mesmo, de impossibilidade – e para a experiência que permite, dificulta ou impede essa capacidade de ver todas as coisas novas. Importa, por isso, interrogar o lugar existencial, espiritual, cultural a partir do qual se vê, o ângulo efetivo, que, em última instância, é sempre ângulo afetivo, a partir do qual se projeta luz sobre a realidade. Daqui colhemos o alcance da ordenação dos afetos, segundo a linguagem dos Exercícios Espirituais (EE) de St. Inácio de Loiola, enquanto condição de possibilidade para procurar, encontrar e eleger “o amor, querer e interesse de Deus” e chegar a “ver todas as coisas em Deus e Deus em todas elas”, não aconteça que, afinal, mesmo com boa intenção e grande impulso, de facto, se esteja a procurar, se encontre e se eleja “o próprio amor, querer e interesse” e que a luz que se projeta sobre as coisas não seja aquela que permite entrever, pressentir, tocar e apreciar Deus em todas elas.

Para explorar este tópico, recorrerei ao filósofo Silvano Petrosino e à sua teoria do olhar – olhar enquanto experiência humana da luz; lugar dramático, não linear, no qual o sujeito humano faz a experiência da luz; luz com que o ser humano ilumina o mundo (Piccola metafisica della luce, Milão: Jaka Book, 2004, e Piccola metafisica della luce. Una teoria dello sguardo, Milão: Vita e Pensiero, 2021).

As condições do olhar. «No olhar está a vastidão da alma, a generosidade do desejo» (E. Salmann). E quem diz a vastidão da alma dirá a sua estreiteza. Quem diz a generosidade do desejo, dirá o seu apoucamento quando se bloqueia a abertura que o constitui e se confunde com a necessidade que busca extinguir-se com a satisfação, até que nasça nova necessidade. Mas talvez pudéssemos acrescentar ainda que no olhar está a elevação ou a surdez da escuta de uma voz que nos transcende e nos implica, mais íntima ou mais alta, ou a humildade ou a falta dela para confessar a própria vulnerabilidade.

O olhar capaz de “ver novas todas as coisas” será aquele que, a partir da experiência do sujeito que olha, puder projetar luz sobre todas elas, a partir de quatro coordenadas de um lugar existencial e espiritualmente bem situado: i.  da gratidão e da reconciliação com a memória da própria origem, do património herdado, da biografia passada; ii. da abertura e da vivacidade do desejo que mobiliza a liberdade e a projeta para o futuro que atrai, em tensão criativa e esperançosa; iii. da elevação e da escuta que convoca e habilita a corresponder em primeira pessoa a um apelo maior e de assumir responsabilidade pela palavra dada; iv. do reconhecimento e da confissão humilde do custo da própria finitude e vulnerabilidade, das linhas curvas e das zonas recônditas ou sombrias que também dizem cada ser humano.

Porém, não é dado que a origem e o passado gerem gratidão, nem que o horizonte e o futuro atraiam e mobilizem a liberdade; não é dado que sejamos atentos, prontos e diligentes em relação aos apelos da consciência, da realidade ou do próprio Deus, nem que sejamos suficientemente humildes para reconhecer e confessar a própria fragilidade. Uma vez que podem informar a experiência, também o ressentimento e a autossuficiência, a soberba e a apatia são lugares de projeção de luz sobre a realidade, a qualidade deformada que a realidade devolve a quem a olha iluminada por essa luz-escuridão.

“Em Cristo” é a chave que abre os sigilos do olhar capaz de ver novas todas as coisas, é a oficina na qual se trabalham as condições de possibilidade e se modela a experiência que permite que todas as coisas sejam novas ao olhar. O que faz novas as coisas todas é que sejam olhadas em Cristo, que seja Cristo a luz que se projeta sobre a realidade.

Em Cristo” é a chave que abre os sigilos do olhar capaz de ver novas todas as coisas, é a oficina na qual se trabalham as condições de possibilidade e se modela a experiência que permite que todas as coisas sejam novas ao olhar. O que faz novas as coisas todas é que sejam olhadas em Cristo, que seja Cristo a luz que se projeta sobre a realidade. Compreenderemos a centralidade nos EE da contemplação de Cristo e dos mistérios da sua vida – os encontros com múltiplas personagens, as palavras ditas e escutadas, os silêncios, as interrogações e os toques, as ações e o modo de as realizar, etc. –  segundo as narrativas evangélicas, para “tirar proveito” daquilo que se vê, das palavras que se ouvem, de quanto se considera. Aí entrevemos, pressentimos, tocamos e apreciamos como Jesus também é sujeito de memória grata (Filho) e de desejo vivo (Messias), de elevação em autenticidade (Senhor) e de exposição radical à vulnerabilidade humana (Servo). No unigénito que se faz primogénito, o filho único que se faz primeiro de muitos irmãos, reconhecemos a santidade da experiência, da existência e da identidade de Jesus – disponível e hospitaleiro de quem quer que encontre no caminho e desprendido de si e da própria vida –, reconhecemos a qualidade do seu olhar, a luz que projeta sobre todas as pessoas e coisas.

Olhar novo em Cristo como ato eclesial. Importa que “olhar novas todas as coisas em Cristo” não fique unicamente no registo individual e intimista em que, muitas vezes, a experiência espiritual corre o risco de nos deixar, mesmo nos EE. Apesar de tudo, poderá ser a via mais cómoda. Mas não basta ficar no registo individual das forças espirituais. A dinâmica espiritual deverá assumir visibilidade partilhada e reconhecível – eclesial –, ser força que ganha forma num determinado modo de proceder e num estilo de vida comunitário particular. Cabe-nos atender à dimensão e às implicações eclesiais do olhar capaz de ver novas todas as coisas, ainda mais no momento epocal que é o nosso: como vem repetindo o Papa Francisco, não é só um tempo de mudança – todos os tempos o são –, mas que configura uma mudança de tempo. Tal como as formas visíveis precisam de forças espirituais para que não fiquem ocas e estéreis, assim as forças espirituais que movem homens, mulheres e comunidades de hoje reclamam formas visíveis e identificáveis, para que não se dispersem e se percam.

Se é acertado o pressuposto do qual parto, também ao nível comunitário-eclesial, não vemos o que devemos ou o que queremos, mas o que podemos. Importa que em Cristo observemos e trabalhemos as condições de possibilidade do nosso olhar comum, para que seja bom e, assim, o todo o corpo que somos, enquanto Igreja, esteja na luz. O Concílio Vaticano II procurou reorientar o olhar da Igreja, o ângulo de observação a partir do qual quis projetar luz sobre a realidade. Em primeiro lugar, renunciando ao olhar de condenação e de rejeição que reduzia imediatamente a indevido e a rejeitável tudo quanto era etiquetado como novo. Na linguagem de então, tudo o que era “moderno” e todos os apologistas e cultores do moderno eram rotulados como “modernistas”. Ser moderno era motivo suficiente para ser denunciado e combatido sem hesitação. Desse lugar de observação e sob o foco dessa luz, só o que era velho, o já visto e já conhecido, o já estabilizado, institucionalizado e codificado seria bom e justo. Não se deixava qualquer legitimidade evangélica ao novo, fruto de tempos novos, de condições novas, de interrogações existenciais e de realizações culturais novas. O Vaticano II quis purificar esse olhar.  Mas quis ir mais longe, enquanto também se quis deixar olhar e interpelar pela cultura moderna que, até então, sentira, à partida, exterior, estranha e hostil. A Igreja não tinha apenas algo a dizer e a ensinar ao mundo. Também teria algo a escutar e a aprender com o mundo, com os seus novos dinamismos, realizações e configurações. Nesses tempos novos, cabia-lhe ler os sinais através dos quais o próprio Senhor lhe poderia estar a falar.

Também hoje, esta dupla disposição do olhar – o modo como se olha o “outro” e o “fora” e o modo como se deixa olhar por eles –  continua a conservar a virtude de informar a experiência eclesial, de dar ângulo de visão e de determinar a qualidade da luz que a Igreja projeta sobre o tempo presente, as pessoas e as culturas.

O olhar.

Não vemos o que devemos ou o que queremos, mas o que podemos

O olhar é a luz com a qual iluminamos o mundo. Na relação que temos com as coisas e com a luz que nos permite conhecê-las, defende S. Petrosino (2021: 13-45.75-86.93-99), há um traço que nos é particular, enquanto humanos. Somos diferentes de uma pedra, por exemplo. A pedra só pode ser iluminada. Já, nós, além de iluminados, também somos iluminação. O sujeito humano não se limita a receber a luz. Também ilumina. Nós, sujeitos humanos, somos luz. A luz não nos vem apenas de fora. Projetamos luz e iluminamos a partir de dentro. A pedra está aí, mas só aparece como pedra por meio de uma luz que a ilumine. Se não for aproximada por um olhar humano é como se não existisse. A pedra vem ao encontro do ser humano na medida em que este for ao seu encontro. Por isso, mesmo tendo os olhos abertos, pode ser cego. Se estiver no seu próprio mundo, gerindo as suas urgências e preocupações, indiferente ao que o rodeia, poderá impedir que a realidade venha ao seu encontro. Na verdade, se não for ao encontro da realidade esta não aparece. É como se não existisse. Olhar começa, pois, pela disponibilidade para se deixar olhar. Por exemplo, se, já atrasado, atravessar uma rua de cidade para chegar à estação de comboio, por quantas lojas passarei sem que as tenha olhado? Passaram pela retina dos meus olhos, mas não as olhei. É como se não existissem. Tendo vindo ao meu encontro pelos olhos, não fui ao seu encontro com a minha disponibilidade e com a minha atenção. As condições pessoais não permitiram que as iluminasse. Se atravessar a mesma rua, agora, sem pressa, mas com fome, possivelmente, serão os restaurantes ou as pastelarias que olharei. Também poderá haver bancos ou lojas de roupa, mas é como se não existissem. A fome tal como a ira têm o poder de cegar. Não deixam ver mais nada do que o alimento que satisfaça essa necessidade de alimento ou a idealização de uma vingança que possa aliviar a ira. Eis, pois, que, com o olhar, não vemos simplesmente determinada coisa, mas abrimo-nos de determinado modo a essa coisa, prestando ou não prestando atenção ao seu vir até nós. Neste sentido, a atenção será uma forma particular de cuidado, de salvaguarda da realidade. Prestando atenção ao vir até mim de determinada coisa, estou a cuidar dessa mesma coisa, permitindo que ela seja.

Na experiência humana da luz, ver diz a reação dos olhos aos estímulos luminosos. Tem que ver com a impressão da luz, com o seu impacto no olho, enquanto órgão da visão. Ver é olhar quando se responde à luz, ou seja, quando se vai ao encontro daquilo que vem ao encontro. Por isso, o olhar não é mera reação. Reação seria, por exemplo, a da máquina de filmar que vê, mas sem olhar. O olhar é sempre resposta, e, por ser resposta, é expressão, um modo particular de olhar.

Petrosino (2021: 87-144) explora alguns exemplos de resposta do olhar. O olhar de apropriação, quando são a necessidade e o apetite que conduzem ao encontro com a realidade, segundo a medida dessa apropriação. A expectativa é a de colmatar uma necessidade que se preencha pela satisfação. Se for a fome a necessidade que move o sujeito, ele já começa a comer com o olhar, antecipando o ato posterior de agarrar com a mão e de mastigar com a boca. Outro exemplo é o olhar invejoso, como resposta que avança sobre a realidade segundo o olhar de um outro que gera sentimentos de impotência e de ressentimento. O outro tem algo que eu não tenho e, sobretudo, algo que eu nunca poderei vir a ter. Aqui, o olhar de um sujeito é determinado pelo olhar intolerável de outro de quem se é refém – imaginariamente, mas, ainda assim, realmente. É como refém do olhar de outro que se olha. Diferente é o olhar de admiração. Olha-se na medida em que se reconhece gratamente olhado. É o olhar que avança enquanto se dá um passo atrás, o olhar que colhe enquanto acolhe.

O olhar e as suas respostas-expressões, dizendo o modo como o sujeito ilumina, são lugar de dupla revelação: revelam aquilo que é olhado e revelam o modo de ser do sujeito que olha.

O olhar e as suas respostas-expressões, dizendo o modo como o sujeito ilumina, são lugar de dupla revelação: revelam aquilo que é olhado e revelam o modo de ser do sujeito que olha. A medida das coisas – a ratio – é o olhar com que se vai ao encontro delas, segundo a medida da própria experiência. Pensemos numa pessoa que foi violentada. A forma como passa a olhar a realidade e os outros depende da luz que lhe vem dessa experiência dolorosa de violência a que foi sujeita. O mal que lhe foi feito passa a entrar e a permanecer nela pelo olhar. É a partir dele que passa a iluminar o mundo que, à partida, passará a ser agressivo, motivo de desconfiança, razão de necessidade de proteção e de defesa.

Resulta, pois, como sustenta Petrosino, que não olhamos o que devemos ou o que queremos, mas o que podemos. Mais do que ver o que se deve ver e mais do que ver o que se quer ver, o sujeito humano vê o que pode ver. A medida do seu olhar decorre da sua experiência: vê o que a sua experiência lhe permite poder ver. O sujeito olha, ilumina e responde como pode e com o que pode a sua experiência. Segundo o exemplo anterior, alguém que faça experiência do mal ilumina toda a realidade a partir do mal. É essa experiência que lhe fornece a “luz” com que “ilumina”. Já alguém que faça experiência do bem, ilumina a partir do bem. Se a luz com que se olha for a do ressentimento, do fracasso, da impotência, do ciúme ou da inveja, a realidade aparecerá a essa luz. Daí que, quando a experiência pessoal se absolutiza, faz-se com que se olhe toda a realidade a partir dessa luz. Toda ela se torna agressiva, ofensiva, intolerável. É certo que não se poderá anular a experiência, mas caberá tomar consciência das linhas retorcidas com que se cose, das forças que se agitam nela, de como é modelada, para resistir a que seja ela a iluminar toda a realidade. Compreendemos, pois, o alcance das palavras de Jesus: “se a luz que há em ti é escuridão, como será grande a tua escuridão”. Se a luz que ilumina a vida, os outros, o mundo é a luz do mal, quão grande será a escuridão. O grande drama estará em ter a escuridão – a desconfiança, o ressentimento, a inveja, a autossuficiência, a vaidade, a soberba, etc. – como luz e medida do olhar. Importa, por isso, cuidar de um olhar que seja inocente: que não faça mal, que não manipule, que não destrua. O olhar inocente será o olhar justo, que faz justiça ao que vem ao encontro e reclama atenção e cuidado.

As condições do olhar inocente.

Entre origem e destino, elevação e vulnerabilidade

Se é a experiência que determina o olhar, haverá que atender à medida, à ratio com que se vai ao encontro daquilo que vem ao encontro, ao que condiciona ou possibilita o olhar.

Nos EE, o ponto de partida é sempre o lugar existencial em que se está, seja ele qual for. O lugar real, não o lugar devido, o lugar suposto ou ideal. Aí se colhe a força originária e permanente da pergunta primeira de Deus a Adão: «onde estás? (Gn 3,9). O lugar onde se está, o lugar que se é e a partir do qual se olha a realidade, é lugar incontornável que importa descrever. Enquadra-o um princípio originário e dá-lhe chão seguro um fundamento que se declina como amor primeiro, maior e permanente, o Amor que Deus é. Ao mesmo tempo, está permanentemente exposto à insinuação manhosa e mentirosa da serpente que gera dúvida afetiva acerca da verdade e da justiça dessa origem e desse destino. O amor como ratio original do olhar é deformado pela suspeita. Quando tudo poderia ser visto e iluminado à luz do amor e da promessa da vida e das relações, passa a sê-lo sob a luz da desconfiança e do medo.

O lugar que habitamos e que, em última análise, somos, poderá desenhar-se em dois eixos. Um eixo horizontal que vai da origem ao destino e um eixo vertical que se traça entre a altura-soberania de um apelo que excede o próprio sujeito, o eleva e o interpela a responder em primeira pessoa e o abismo-vulnerabilidade da finitude humana, com o seu lado sombrio e poder de afundamento.

Ora, o lugar que habitamos e que, em última análise, somos, poderá desenhar-se em dois eixos. Um eixo horizontal que vai da origem ao destino e um eixo vertical que se traça entre a altura-soberania de um apelo que excede o próprio sujeito, o eleva e o interpela a responder em primeira pessoa e o abismo-vulnerabilidade da finitude humana, com o seu lado sombrio e poder de afundamento. Estes dois eixos põem em tensão quatro polos que serão tanto mais fecundos quanto mais se mantiverem, precisamente, em tensão, de modo a que não se desequilibrem para nenhum dos lados ou se anulem mutuamente:

i. a origem, a herança, o passado, a memória: promessa reconhecida, património gerador de possibilidade ou motivo de lamento e de ressentimento;
ii. o horizonte, o desejo, o porvir, o projeto de vida, reconhecido como digno de confiança e capaz que gerar empenho, criatividade, dádiva de si ou, então, veleidade de começar tudo do zero, voluntarismo ou, ainda, apatia, preguiça, desistência;
iii. o apelo interior – da consciência, de Deus, da lei, da moral – que interpela a liberdade e ao qual se corresponde responsavelmente ou se ignora ou se recusa;
iv. a vulnerabilidade e fragilidade que se assumem e se confessam ou se justificam e se negam.
O lugar existencial-espiritual onde estamos, do qual partimos e voltamos a partir, desenhar-se-á, pois, na relação justa ou desordenada com a origem, motivo de gratidão ou de ressentimento, e o destino que compromete a liberdade ou que nos deixa apáticos; na relação justa ou desordenada com a própria altura-soberania, na forma da correspondência ao apelo ou da surdez e da indiferença, e o próprio abismo-vulnerabilidade que se confessa ou se nega. Cada um destes polos, assim como a tensão entre eles, são feitos, pois, de direito e de avesso, de fecundidade e de regressão, de luz e de trevas.

Muito mais poderá ser dito sobre estas coordenadas para um lugar bem situado e um olhar inocente, tanto ao nível pessoal, como, também, comunitário. Permito-me reenviar para A fé vive de afeto, Prior Velho: Paulinas, 2013, 9-48, e Entre-tanto, Prior Velho: Paulinas, 2014, 37-74.116-125, onde pude desenvolver um pouco mais o tema.

Em Cristo.

O conhecimento interno de Jesus, aberto a quem encontra e desprendido de si

Em Jesus de Nazaré, reconhecemos estes mesmos eixos e polos. Como Filho gerado pelo amor do Pai, aprende a viver a gratidão por tudo quanto recebeu e a realizar a liberdade e a criatividade própria dos filhos, mesmo no momento do próprio aniquilamento. Jesus vive a finitude humana e o que ela tem de vulnerabilidade e de abissal: no seu corpo, na exposição ao tempo e às relações, diante da ameaça da morte. Vive esta experiência de não ser tudo, de não poder tudo em qualquer momento, a qualquer custo, de não se substituir à liberdade e ao tempo dos outros. Nessa mesma finitude custosa, mas cheia de graça, realiza a sua identidade de bom filho, reconhecido e livre, e, por isso, de bom irmão. Mas, também de Messias, de Senhor e de Servo.

O que é próprio do filho é poder viver grato pelo dom recebido e poder investir-se a partir daquilo que recebeu. Do facto de viver agradecido, nasce uma grande liberdade. O reconhecimento e a gratidão são expressões de liberdade. Sabe aproximar-se e sabe afastar-se; sabe estar com as multidões e sabe separar-se no deserto; sabe comer e beber em casa de publicanos e sabe fazer jejum. Está tão próximo das coisas e das pessoas que está verdadeiramente com elas, sem se deixar aprisionar por nenhuma coisa ou relação.

Tendo uma relação verdadeira com o Pai, a sua origem e o seu destino, pode ter uma relação verdadeira com a vida, com as pessoas, com as coisas, com o porvir. A sua liberdade é fruto e exprime a verdade da sua relação filial. Não deixa de ser extraordinário, tal como nos narram os Evangelhos, a capacidade que Jesus tem de sentir o mundo e, nele, de se sentir em casa. As suas parábolas revelam o contacto atento e livre com a vida e os seus ritmos, com as coisas mais simples do quotidiano. Jesus não elabora raciocínios abstratos. O seu discurso é simples e envolve aqueles que o ouvem. Sabe colher a capacidade que as coisas pequenas da vida e da natureza têm de falar do Reino, já a acontecer, e do próprio Deus. Já os seus milagres realizam a capacidade de se deixar encontrar, interpelar e tocar, de modo a restituir a vida a quem ficara limitado ou a perdera. Jesus toca as feridas do corpo, da alma e das relações; quebra os seus movimentos de morte, exorcizando os espíritos maus que fazem as vidas surdas e mudas, que apodrecem a pele, a superfície de contacto com a realidade exterior, que paralisam os movimentos, que separam da estima dos próximos e da bênção de Deus. Jesus restitui graça à vida, reavivando a confiança mais elementar na vida, na sua origem e no seu destino, fonte da bênção, ainda que custosa, necessária e suficiente para que uma existência se edifique como lugar bem situado e o olhar com que se ilumina a realidade seja inocente.

Jesus toca as feridas do corpo, da alma e das relações; quebra os seus movimentos de morte, exorcizando os espíritos maus que fazem as vidas surdas e mudas, que apodrecem a pele, a superfície de contacto com a realidade exterior, que paralisam os movimentos, que separam da estima dos próximos e da bênção de Deus.

Aqui poderemos entrever o princípio e o fundamento da santidade de Jesus, a origem e o ângulo da luz que Jesus projeta sobre a realidade, a forma do seu olhar. O teólogo Christoph Theobald, a partir da categoria de estilo – um modo distintivo de habitar o mundo – identifica a santidade de Jesus em dois grandes traços:  hospitalidade e desprendimento de si. Estes determinam a qualidade das suas relações e a relação inédita que tem com a vida e com a morte (a título de exemplo, veja-se Selon l’Esprit de sainteté, Paris: Cerf, 2015, 181-201).

A disponibilidade para se deixar surpreender e aprender com quem quer que encontre no caminho, inesperadamente, na maior parte das vezes, dizem o modo como Jesus habita o mundo, a forma como o olha – e como se deixar olhar e interpelar – e como entra em relação com ele. É este o seu estilo de vida. É esta a forma da sua santidade. Jesus vive desprendido de si, aberto às relações que o caminho vai fazendo acontecer, facilitador da graça surpreendente e inédita que esses encontros podem gerar em favor daqueles que encontra e que, de algum modo, estão limitados na vida. Vive cedendo o lugar, sem deixar o seu próprio lugar. Nesta atenção e empatia, nesta liberdade descentrada, revela uma capacidade inaudita de pôr quem encontra em contacto com a confiança elementar na vida, com a bondade da sua origem e a promessa do seu destino, a partir daquilo que cada um é, daquilo que o eleva e das zonas escutas e retorcidas da sua existência que o rebaixam. Quem se encontra com Jesus reconhece, por isso, que o bem que lhe é feito – a salvação – não vem de fora como algo estranho, nem se lhe impõe de cima à revelia da vida, tal como a vive, a compreende e a exprime. Cada qual reconhece o dom da vida, a sua origem e o seu destino, emergindo e elevando-se de dentro, da sua própria grandeza e vulnerabilidade, de onde se joga a sua própria verdade e, nela, as dinâmicas de morte que a ameaçam. “A tua fé te salvou”, afirma Jesus recorrentemente. Cada um, ao seu modo, segundo a verdade do que é, é posto, de novo, em contacto com a graça da vida e com a promessa que alimenta o desejo de vida, a que dá o nome de Abbá.

Mas Jesus vai mais longe. Quando a hostilidade no seu confronto cresce e a vida se apresenta com ameaças de morte, Jesus permanece fiel à mesma disposição para o encontro, com a mesma verdade, com o mesmo desprendimento. Também aí dá o lugar ao outro, sem deixar o seu próprio lugar. A santidade de Jesus diz a sua inteireza, autenticidade e coerência. Jesus, o filho amado e, por isso, o mais livre, sente e diz o que pensa e faz o que diz. A falsidade, a mentira, a inautenticidade, matam mais a vida do que a morte que pode atingir o corpo. Jesus abraça a morte por amor à vida, à verdade e à justiça da sua origem e do seu destino. A vida não é fruto preservado a todo o custo. É dom recebido, cuja gratidão é capaz de gerar gratuidade e dádiva. Tal como a vida traz consigo inevitavelmente a morte corporal – temos uma só vida, por mais longa que seja –, a arte de viver bem implica a arte de morrer bem. Jesus testemunha como só a vida que se dá permanece. Aquela que se preserva à custa da vida de outros corrompe-se e dispersa-se: este é o modo de viver que mata.

Não será distorcido este modo de olhar, não será sinal de fraqueza este estilo de vida, este ser assim, dom de si para o bem de quem quer que encontre no caminho, seja judeu ou samaritano, amigo ou hostil, justo ou pecador? Que vida se gera neste modo de vida? Sim, será loucura para uns e estupidez para outros. E, porém, é a marca da autenticidade da vida de Jesus, a marca da autoridade do Filho que não revela o Pai porque cega e seduz, nem se impõe fazendo violência sobre a liberdade dos outros. Cede lugar, sem deixar o próprio lugar – a vida ninguém lha tira, é ele mesmo que, livremente, a dá – para bem de quem quer que encontre no caminho, de modo que esse que encontra aceda ao mais elementar da própria vida. Jesus revela, assim, plena autenticidade e concordância consigo mesmo. A sua autoridade é a ausência de falsidade, de mentira. Nele, pensamentos, palavras e ações concordam de modo coerente, manifestando a simplicidade e unidade do seu ser. Pela santidade comunicacional e hospitaleira, inseparável da confiança na vida, Jesus dá forma a um estilo de vida em que conteúdo e modo de proceder, força e forma concordam sem fissuras. E, assim como a sua vida é feita de um tecido inteiro, sem costuras, assim o seu olhar é justo, inocente.

O lugar eclesial.

Condições de possibilidade para um olhar inocente

Chegados aqui, importa que nos perguntemos sobre o alcance eclesial deste modo de projetar luz sobre a realidade e de nos edificarmos, hoje, como lugar bem situado.

O Vaticano II poderá ser lido a partir do ângulo de visão e do modo de olhar que se esforçou por assumir (pude desenvolver o tema no artigo “A índole pastoral da doutrina cristã: conservação e mudança”, em Brotéria 192-4 (2021), 351-363, tendo como principal referência Stella Morra – Marco Ronconi, Incantare le sirene, Bolonha: EDB, 2019). No último concílio ecuménico, a Igreja quis passar a cultivar um olhar hospitaleiro e generoso em relação ao exterior e quis acolher o olhar exterior sobre si, para aprender com ele. De facto, o Vaticano II quis assinalar-se pela mudança de olhar. Mudar, por um lado, a disposição e o modo como a Igreja olha para fora de si. Mudar, por outro, a disposição e o modo como a Igreja se deixa olhar pelo outro diferente de si.  Porque uma coisa é olhar a realidade a partir do centro e de cima, outra coisa é olhá-la de baixo e da margem; uma coisa é olhar a partir da posse, outra é olhar a partir da carência; uma coisa é olhar a partir da autossuficiência sobranceira, outra coisa é olhar a partir do desprendimento de si em favor de quem se encontra no caminho, seja este quem for; uma coisa é entender que o Espírito só fala num único sentido, o da Igreja para o mundo, outra coisa é crer que o mesmo Espírito também fala à Igreja a partir do mundo. Como tenho vindo a referir, as condições e o lugar a partir do qual se olha determinam a luz e qualidade do olhar.

Trata-se, portanto, de olhar o mundo, a história, o contexto, as vidas reais com outros olhos, de modo a deixar de os ver imediatamente como erro a corrigir, degradação a emendar, culpa a condenar, inimigo a combater. Esse olhar deixará de servir a vida e a missão da Igreja. Demasiadas energias, durante demasiado tempo, tinham sido gastas a condenar o mundo moderno, a rejeitá-lo, a combatê-lo, a proteger-se dele como não podendo ter, de todo, qualquer marca do Evangelho de Jesus.

Este olhar novo passava também por se deixar interpelar pelo mundo, tal como ele atuava, se compreendia e se exprimia, para escutar melhor o Evangelho, para aprender melhor, por meio dele, quem se é, enquanto cristãos. Supõe-se, pois, que, à plenitude da verdade que a Igreja recebeu do Senhor, que lhe cabe celebrar, testemunhar e anunciar como boa nova que salva, chega-se pelo caminho mais longo que passa pelos tempos e lugares em que vive e pelas vidas e comunidades reais com quem vive e a quem se dirige. Não por condescendência, sempre no medo de corromper a própria identidade, mas, convictamente, por fidelidade à própria identidade.

A Igreja quis alterar as condições de possibilidade do seu olhar sobre o mundo, mesmo se difícil de compreender e de aceitar ou mesmo sendo hostil. E quis fazê-lo a partir da abertura honesta – não significa que não seja crítica – à fisionomia dos tempos modernos, que permitisse que o novo não fosse imediatamente rotulado de indevido, mas fosse, antes, acolhido como lugar possível através do qual o Senhor poderia estar a falar à Igreja. Os tempos modernos poderiam trazer consigo sinais da parte do próprio Deus que cabia reconhecer e discernir – a este exercício de atenção e de discernimento se refere a expressão “sinais dos tempos”. Passava pela disposição para se deixar olhar por esse “outro” ou “fora de si”, para aprender com ele algo sobre a própria identidade. A Igreja não tinha apenas que ensinar outros a ver novas todas as coisas em Cristo, mas precisava de aprender com a realidade exterior e os seus movimentos culturais a possível novidade de todas as coisas quando olhadas com os olhos inocentes-justos em Cristo.

A Igreja não tinha apenas que ensinar outros a ver novas todas as coisas em Cristo, mas precisava de aprender com a realidade exterior e os seus movimentos culturais a possível novidade de todas as coisas quando olhadas com os olhos inocentes-justos em Cristo.

Na dupla atenção aos destinatários do anúncio, a quem se reconhece na sua alteridade, diferença e particularidade, e com quem se quer aprender algo de bom, se radica o princípio da missão pastoral da Igreja que decorre do próprio estilo de Jesus e do Evangelho. De modo sintético, não se dá anúncio do Evangelho de Deus sem levar a sério e sem tomar a seu cargo aqueles a quem se dirige, assumindo-se paralelamente que aquilo de que se trata no anúncio já está a agir nesses mesmos destinatários, de modo que lhe poderão aderir em liberdade, a partir de dentro e não como a algo que lhes é exterior ou imposto de cima.

Na verdade, não estamos longe do modo de proceder de Jesus, do seu estilo. No exemplo extraordinário narrado por S. Lucas, no cap. 7, o da mulher pecadora em casa do fariseu Simão, não é Jesus quem toma a iniciativa de ensinar sobre Deus. É a mulher que, aparecendo inesperadamente na cena, interrompendo o curso das coisas, com a paixão dos seus gestos, à partida, inapropriados e excessivos, permite que Jesus diga algo de novo sobre si e sobre Deus. Sem esta mulher, ficaria algo por dizer, daquela maneira: a liberdade de Deus, o santo, o puro, que se deixa aproximar, tocar, beijar pelo pecador, pelo impuro, pelo religiosamente marginal, pelo moralmente reprovável. Vendo o que é feito, já que as palavras explicativas só chegam no fim, quando Jesus se dirige ao fariseu Simão, compreendemos que Jesus não é só a palavra que abre as páginas da vida de quem encontra no caminho. Ele é também a palavra que se abre mais quando exposto às linhas torcidas com que se cosem as vidas que cruza no caminho. A paixão, as lágrimas, o toque desta mulher permitem a Jesus dizer mais, quando se deixa aproximar, tocar, beijar por ela. É este inesperado que permite a Jesus dizer algo de inédito a Simão – e a nós que lemos e imaginamos a cena – acerca do amor, do pecado, da vida, de Deus, de si próprio como Messias.

Poderá a Igreja compreender-se e atuar assim, com esta hospitalidade e desprendimento de si diante de quem quer que encontre, hoje, nos caminhos múltiplos das vidas e das culturas? Com que luz se vê a iluminar a realidade que lhe vem ao encontro? Com que medida, com que ratio, a olha e a salvaguarda? A partir de que lugar quer anunciar o Evangelho? Recuperando as quatro linhas de há pouco, como desenha o seu ponto de vista em relação ao seu passado e à sua memória e em relação ao seu futuro e ao seu empenho? E em relação ao discernimento dos sinais dos tempos e à escuta e correspondência aos apelos que, ecoando em diferentes vozes, lhe chegam do próprio Deus? E sobre a confissão da sua vulnerabilidade?

Procurando concretizar mais, importa que nos interroguemos acerca do como, enquanto Igreja, olhamos para a realidade cultural e para as biografias. Como é que vamos ao encontro das coisas que vêm ao nosso encontro, tal como são? Que luz projetamos sobre elas? Com que medida as olhamos? Com a do reconhecimento ou a do ressentimento? Com a medida da atenção a novos possíveis apelos ou com a medida da surdez e da autossuficiência? Com a medida da liberdade que conjuga fidelidade com tradução da tradição ou do saudosismo paralisador? Com a medida da confissão da própria vulnerabilidade ou com a medida da dissimulação e da falsidade?

Pensando em Jesus e no seu modo de proceder, poderia passar por nos perguntarmos sobre quem seria, hoje, a mulher pecadora por quem se deixa aproximar, tocar e beijar, em casa de Simão? Quem seria a adúltera a quem não atira pedras? Quem seria Zaqueu ou outros publicanos, cujas casas frequentava? Quem seriam os leprosos andrajosos, afastados de tudo, de todos e de Deus por quem Jesus se deixa aproximar e a quem toca? Quem seriam os cegos, os surdos, os paralíticos, os pecadores a quem Jesus se sente enviado a proclamar um ano de graça? Hoje, quem são todos estes? Que nomes têm? Em que categorias sociais ou culturais os classificamos? E como seria ver novos, em Cristo, a mulher pecadora, a adúltera, o publicano, o leproso, os endemoniados, agora, já com outros nomes mais atuais e culturalmente situados? Sim, porque Jesus vendo cada um deles e deixando-se tocar por cada um deles vê mais do que uma pecadora pública, uma adúltera, um publicano, um leproso. Vendo mais, vê melhor.

Depois, ver novas todas as coisas em Cristo passará também por deixar que o novo seja, isso mesmo, novo e, como novo, que seja lugar de possibilidade de expansão, alargamento e aprofundamento do Evangelho, de modo que este diga algo que ainda não tinha podido dizer por ainda lhe faltar este interlocutor que é o nosso momento presente, com as suas pessoas, as suas particularidades e diferenças, para que dissesse o que tinha para dizer. Porque, se o Evangelho é um texto que abre os textos que são cada biografia e cada momento histórico, do mesmo modo, estes mesmos textos abrem e expandem a leitura do texto que é o Evangelho. O Espírito dessa letra circula por entre todas as páginas da Escritura que cremos inspirada, mas, também, entre as vidas humanas que cremos habitadas pelo sopro da Vida. Se é verdade que só por ser novo não tem mais valor do que aquilo que não o é, importa, ainda assim, que, só por ser novo, não seja imediatamente olhado como indevido e inaceitável e, por isso, rotulado de indigno e seja rejeitado.

Ver novas todas as coisas em Cristo passará também por deixar que o novo seja, isso mesmo, novo e, como novo, que seja lugar de possibilidade de expansão, alargamento e aprofundamento do Evangelho, de modo que este diga algo que ainda não tinha podido dizer por ainda lhe faltar este interlocutor que é o nosso momento presente, com as suas pessoas, as suas particularidades e diferenças, para que dissesse o que tinha para dizer.

Reparemos, a este propósito, e só a título de exemplo, na rejeição forte da liberdade de consciência, de imprensa, de pensamento e de culto, por parte de Gregório XVI, na Encíclica Mirari vos, em 1842, afirmando que a liberdade de consciência «era um absurdo, para não dizer uma loucura». Ou na recusa de que os poderes civis tivessem autoridade efetiva sobre a coisa pública, defendendo-se que a Igreja seria a única autoridade moral capaz de legitimar ou de deslegitimar as estruturas e a legislação da sociedade civil. Foi a posição de Pio IX, em 1864, na Encíclica Quanta cura. Ou na defesa da Igreja como societas inaequalis, comunidade de desiguais, em que, por determinação divina, uns estariam em cima, com autoridade para mandar, e os outros em baixo, simplesmente com o dever de obedecer. Pio X fê-lo na Encíclica Vehementer Nos, em 1906 (tomo os exemplos de Severino Dianich, Il Magistero in movimento, Bolonha: EDB, 2018, 35-98). Curiosamente, hoje, depois de os rejeitar e combater, a Igreja será, a primeira a defender valores modernos que nesses contextos culturais, sociais e políticos se queriam afirmar e fá-lo enquanto reconhece que, na verdade, decorrem do Evangelho. Decorre do Evangelho a liberdade. Decorre do Evangelho a autonomia das coisas criadas. Decorre do Evangelho um único povo de batizados, radicalmente iguais em dignidade, em que a autoridade é serviço. Não sem ironia, foi este “outro”, o mundo moderno, um contexto cultural, político e social bastante hostil à Igreja, que lhe permitiu ver mais e ver melhor o Evangelho.

Hoje, quando falamos, por exemplo, da questão feminina, de minorias ou de pluralidade; quando falamos de orientação sexual ou de género, entre tantos outros temas, teremos hospitalidade e descentramento suficiente de nós mesmos para olhar os fenómenos com atenção, para os olhar e nos deixarmos tocar por eles? Teremos indiferença, humildade e desprendimento suficientes para não rotular imediatamente todas estas diferenças culturais com que nos cruzamos no caminho, etiquetando-as como ideologia, na qual nada pode haver de verdadeiro, ou rotulando-as como mania que não pode ser levada a sério, ou como desordem onde nenhum bem pode ser reconhecido? Mesmo não compreendendo tudo ou não parecendo de todo razoáveis muitas das opções pessoais e das orientações culturais com que nos confrontamos, teremos paciência suficiente para que o próprio tempo decante a realidade e revele, a seu tempo, o que era, na verdade, joio e o que era trigo?

Deixar que o novo revele a sua novidade evangélica – o inédito, o inaudito – e não seja imediatamente rejeitado porque não se conforma às categorias já conhecidas, começando por lhe dar tempo de decantação, também poderá ser um modo de ver novas todas as coisas. Não por falta de sentido crítico ou de ousadia profética; não seguramente por condescendência ou porque fica bem ser aberto, mas porque será, antes de mais, o modo de continuar a dar corpo à santidade de Jesus, de dar forma ao seu olhar inocente que, porque não faz mal, é justo. Dar tempo ao tempo, alargar a imaginação do real e do possível, renovar a confiança na bondade da origem, na promessa do destino e na graça da vida que corre por entre essas margens, poderão ser modulações de um olhar inocente sobre a realidade, precisamente, porque refletem a luz de Cristo e do Evangelho que salva-guarda a vida.

Epílogo

Mais do que luz para obter respostas, «precisamos de ser iluminados na procura» (S. Morra). Justamente iluminados. Ver novas todas as coisas em Cristo será, sobretudo, um modo de olhar, que começa por dizer o lugar existencial e espiritual de onde se olha e a qualidade da luz que se projeta sobre a realidade. Em Cristo – como Cristo –, todas as coisas se verão de forma inocente, justa.

É verdade, no olhar está a vastidão da alma, a generosidade do desejo. Em Cristo, mais vasta será a alma, mais generoso o desejo, mais inocentes serão todas as coisas ao olhar.

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Vídeo e fotografias: OFICINA

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.