O sinal do sangue

Indiana Jones, Leonardo da Vinci, Veronese ou Pascal ressaltaram, cada um à sua maneira, um aspeto da Última Ceia de Jesus. E é no contexto do Antigo Testamento que se encontra uma explicação decisiva…

Indiana Jones, Leonardo da Vinci, Veronese ou Pascal ressaltaram, cada um à sua maneira, um aspeto da Última Ceia de Jesus. E é no contexto do Antigo Testamento que se encontra uma explicação decisiva…

1. Como mel para a boca

No filme Indiana Jones e a Última Cruzada (Steven Spielberg, 1989), Harrison Ford e os seus inimigos nazis têm de encontrar entre inúmeros cálices aquele que foi usado por Jesus Cristo na Última Ceia: será de ouro e de pedras preciosas ou de barro cozido?

 


2. Um texto bíblico

Nestes quatro domingos antes da festa da Páscoa, propomos-vos um pequeno itinerário através de quatro dos passos da Paixão. Começamos com a Última Ceia.

Enquanto comiam, Jesus tomou um pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e entregou-o aos discípulos dizendo:
“Tomai: isto é o meu corpo”.
Depois, tomou o cálice, deu graças e entregou-lho. Todos beberam dele. E Ele disse-lhes:
“Isto é o meu sangue da aliança, que vai ser derramado por todos. Em verdade vos digo: não voltarei a beber do fruto da videira até ao dia em que o beba, novo, no Reino de Deus”.

Evangelho segundo São Marcos, 14,22-25


3. O esclarecimento

O mundo intelectual do Antigo Testamento, no qual Jesus cresce, não pensa com conceitos, mas está permanentemente imerso no que a vida tem de mais concreto. É desde esta perspetiva que os Evangelhos devem ser lidos: é preciso perceber primeiro o sentido muito concreto dos textos antes de discernir a sua força simbólica.

No momento da Ceia, Jesus diz por separado: “Este é o meu corpo” e “Este é o meu sangue”. Desta forma, ele separa o seu corpo e o seu sangue, anunciando a sua morte. Um corpo separado do seu sangue é um corpo que já não vive. Quando ele dá o seu corpo e sangue aos seus discípulos, Jesus dá-lhes a sua vida, tal como a entregará plenamente no dia seguinte na cruz.

 

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Leonardo da Vinci, A Ceia (pintura mural, 1494-1498), Igreja de Santa Maria das Graças, Milão, Itália

 

O sangue é o sinal supremo da vida. É por isso que no mundo judeu ele pertence apenas a Deus, já que para os judeus a vida está nas Suas mãos. Cada pessoa deverá, então, abster-se de tocar num líquido de tal pureza de modo a não se “queimar” e tornar-se impuro. Deve-se sangrar a carne antes de a comer e, ainda hoje no Médio Oriente, a cozedura deverá ser de tal modo que impeça a degustação de um bife malpassado (este modo de ver o sangue está igualmente presente no mundo muçulmano).

Jesus nesta Ceia provoca uma grande revolução: afinal, Ele é Deus, Ele pode dar o seu sangue a beber, Ele tem a autoridade necessária para dar o sinal da vida. A partir daqui a relação da humanidade com Deus e com a vida muda completamente. A humanidade tem acesso a Deus bebendo o Seu sangue. Ela pode não só saborear um belo bife malpassado, como perde o medo de manchar as mãos com os elementos que são reservados apenas a Deus, já que Deus se lhe oferece totalmente.

Entregando o seu corpo e sangue, Jesus destrói as barreiras entre a humanidade e Deus, eliminando a separação entre puro e impuro. Tal leva à mudança radical que tem consequências culturais que ultrapassam evidentemente as questões de culinária…

 

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Paul Veronese, Banquete na casa de Levi, (óleo sobre tela, 1573), Galeria da Academia de Veneza, Itália.

Este quadro deveria ter-se chamado Ceia, mas o tribunal da Inquisição exigiu a Veronese que suprimisse as personagens pintadas que não constam do Evangelho. Podemos ver, em particular, um pássaro e dois soldados de infantaria a beber. Veronese recusa e renomeia o seu quadro com o título Banquete na Casa de Levi. A sua resposta ficou célebre: “Nós, pintores, podemo-nos permitir as mesmas liberdades que os poetas e os loucos.”


4. E ainda uma palavra final…

Entretanto, evitámos a difícil e misteriosa questão: como é que pão e vinho podem ser eles mesmos corpo (e que corpo!) e sangue (e que sangue!)? Pascal não o esclareceu totalmente nos seus Pensamentos, mas deixou-nos uma pista:

“Assim como Cristo andou incógnito entre os homens e a sua verdade não se diferencia exteriormente das opiniões comuns, assim também a Eucaristia não se distingue do pão comum.” (n.º 789)


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