Não, ela não era a mulher de Jesus!

O Código Da Vinci, o evangelho de Filipe em comparação com os evangelhos canónicos e Stefan Zweig para avaliar a relação entre Maria Madalena e Jesus.

O Código Da Vinci, o evangelho de Filipe em comparação com os evangelhos canónicos e Stefan Zweig para avaliar a relação entre Maria Madalena e Jesus.

1. Como mel para a boca

No Código Da Vinci, Maria Madalena é apresentada como a mulher de Jesus e a fundadora duma dinastia escondida… Descubra no Esclarecimento desta semana a resposta que daríamos ao autor Dan Brown!


2. Um texto bíblico

Maria Madalena tem um papel importante no Evangelho. Ele faz parte dos íntimos de Jesus. Sendo a primeira testemunha da ressurreição de Jesus, a Tradição venera-a como a “apóstola dos apóstolos”. Não se trata de uma espécie de elogio displicente no seio de estrutura dominada em grande medida por homens!

Maria estava junto ao túmulo, da parte de fora, a chorar. Sem parar de chorar, debruçou-se para dentro do túmulo, e contemplou dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha estado o corpo de Jesus, um à cabeceira e o outro aos pés. Perguntaram-lhe:

– Mulher, porque choras?

E ela respondeu:

– Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram.

Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus, de pé, mas não se dava conta que era Ele. E Jesus disse-lhe:

– Mulher, porque choras? Quem procuras?

Ela, pensando que era o encarregado do horto, disse-lhe:

– Senhor, se foste tu que o tiraste, diz-me onde o puseste, que eu vou buscá-lo.

Disse-lhe Jesus:

– Maria!

Ela, aproximando-se, exclamou em hebraico:

– Rabbuni! – que quer dizer: Mestre!

Jesus disse-lhe:

– Não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: “Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus.”

Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: «Vi o Senhor!» E contou o que Ele lhe tinha dito.

Evangelho segundo São João 20,11-18


3. O esclarecimento

Em 1945, os habitantes de Nag Hammadi, no Egipto, descobriram um conjunto de manuscritos conhecidos, desde então, como a “Biblioteca de Nag Hammadi”.

Entre os documentos encontrados, o chamado “evangelho de Filipe” despertou a curiosidade dos investigadores. O texto oferecia uma nova versão da vida de Jesus, e principalmente da sua relação com Maria Madalena. Jesus tê-la-ia amado como sua companheira “mais que [todos] os discípulos” e “beijava-a na [boca] frequentemente”.

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Santa Maria Madalena (último quartel do séc. XV, escultura em madeira), Museu de Cluny, Paris.

Teoricamente, esta descoberta dá um bom título de jornal… Nos quatro evangelhos do “cânone” do Novo Testamento (a lista dos livros que fazem parte do Novo Testamento segundo a Igreja), Maria Madalena tem uma amizade próxima com Cristo. No entanto, nunca se fala de uma relação amorosa…

Qual é o valor histórico deste evangelho?

A título de comparação:

  • Os quatro Evangelhos foram compostos no séc. I.
  • O evangelho de Filipe foi escrito no séc. III ou posteriormente. O valor histórico do que ele narra é, portanto, frágil. Seria como lançar uma pequena fake news, com dois séculos de atraso, sobre um tema polémico sem se dar ao trabalho de citar alguma fonte para apoiar essa afirmação.

Lendo o Novo Testamento com preconceitos anti-institucionais e aplicando a teoria da conspiração às origens cristãs, alguns autores acreditaram poder servir-se do evangelho de Filipe para expor uma verdade que teria sido escondida desde o início.

 

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Il Correggio (1490-1534), Noli me tangere (c. 1525), Museu do Prado, Madrid.

Qual é o valor dos quatro Evangelhos?

Se o evangelho de Filipe tem pouco valor histórico, que pensar dos quatro evangelhos do Novo Testamento? Como é que esta coleção de quatro evangelhos foi constituída?

A lista dos livros do Novo Testamento (o cânone) fixa-se relativamente cedo. Por volta do ano 150 d. C., o filósofo cristão Justino de Roma atesta explicitamente o reconhecimento canónico dos quatro evangelhos. Por volta do ano 170 d. C., uma lista romana chamada “Fragmento Muratoriano” dá-nos o resto da lista. Dois séculos mais tarde, o patriarca Atanásio de Alexandria confirma a lista dos livros na sua mensagem de Páscoa, em 367 d. C.

três critérios para que um texto possa fazer parte do Novo Testamento (isto é, ser considerado canónico):

  • A apostolicidade: é obra dos apóstolos que conheceram diretamente Jesus, ou da primeira comunidade que transmitiu o testemunho dos apóstolos;
  • O carácter público: é lido publicamente durante a liturgia das comunidades cristãs. Para a sensibilidade cristã, a salvação não está vinculada a uma literatura secreta ou oculta;
  • A ortodoxia: não contradiz abertamente a fé das Igrejas, cujo critério é o conjunto das Escrituras.
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Gregor Erhart (1470-1540), Santa Maria Madalena (c. 1515), Museu do Louvre, Paris.

Que podemos reter de tudo isto?

  • Os relatos evangélicos editados no Novo Testamento remontam ao séc. I;
  • Pretender que as Igrejas no Oriente e no Ocidente esconderam a verdade sobre a relação entre Jesus e Maria Madalena não assenta sobre nada de palpável. Claro que podemos permanecer indefinidamente céticos! Mas, cientificamente, uma tal atitude não tem qualquer fundamento.

4. E ainda uma palavra final…

Este debate em torno a Maria Madalena e Jesus esconde o milagre da sua amizade: Deus-feito-homem vincula-se pela amizade a uma mulher! Os sentimentos da personagem principal de Impaciência do Coração de Stefan Zweig poderiam muito bem ser os de Maria Madalena, a quem Jesus chamava pelo nome próprio:

“Esta saudação emocionou-me. Ele sabia, no entanto, quão fraco e cobarde eu tinha sido, e ainda assim ele não me desprezava. Esse nome de amizade vindo de um homem experiente, um ancião, fortaleceu a minha coragem.”

(Stefan Zweig, Impaciência do Coração, 1939)


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