Foi num espaço de memória e futuro – a Casa Velha, quinta que promove a ecologia e a espiritualidade, em Ourém – que cerca de 150 pessoas se reuniram no sábado, dia 25 de outubro, para celebrar os 10 anos da publicação da encíclica Laudato Si e para sonhar o futuro. Um dia abençoado pela irmã chuva, como diria São Francisco de Assis, num espaço simples e acolhedor, mas marcado por muita alegria, partilha, aprendizagem e oração.
A iniciativa partiu de vários parceiros que têm vindo a trabalhar o tema da ecologia integral – Casa Velha, Universidade Católica Portuguesa, Comissão Nacional Justiça e Paz, Rede Cuidar da Casa Comum, Companhia de Jesus, Escravas do Sagrado Coração de Jesus, e Movimento Laudato Si – mas acolheu pessoas vindas de muitas zonas do país, com pertenças eclesiais distintas e experiências pastorais muito diversas. Uma riqueza que foi evidente nas conversas, nas partilhas e na troca de ideias que ocorreu ao longo dos vários momentos do dia.
O escritor e jornalista congratulou-se ainda pela continuação deste trabalho pelo Papa Leão, que considera que esta conversão integral é necessária, não apenas para combater as alterações climáticas, mas para nos convertermos ao Evangelho.
Durante a manhã, os participantes neste encontro denominado “Laudato Si: celebrar o caminho, animar à ação” puderam escutar os ensinamentos de dois profundos conhecedores do documento, do pensamento que o inspirou e do seu autor: o Papa Francisco. Austen Ivereigh, biógrafo de Francisco, partilhou o percurso de conversão ecológica do próprio Papa Francisco, sublinhando o tom profético que as suas palavras continuam a animar, uma década depois. O escritor e jornalista congratulou-se ainda pela continuação deste trabalho pelo Papa Leão, que considera que esta conversão integral é necessária, não apenas para combater as alterações climáticas, mas para nos convertermos ao Evangelho. Dando como exemplo o trabalho que está a ser desenvolvido no Borgo Laudato Si, nos jardins do Palácio apostólico de Castel Gandolfo, nos arredores de Roma, Austen Ivereigh diz-se convencido de que Leão XIV irá prosseguir esta intuição de Francisco, assumido que é preciso passar dos discursos ambientalistas para uma conversão que altere os estilos de vida de cada um e das comunidades. O escritor inglês, também profundamente inspirado pelo espírito da Laudato Si, partilhou a sua experiência pessoal e familiar na quinta onde vive no norte de Inglaterra.
Na sua intervenção, Elena Lasida, economista que nasceu no Uruguai mas lecciona em Paris promovendo o diálogo entre a economia e a teologia, sublinhou três ideias chave da Laudato Si: a interdependência, a gratuidade e a fragilidade. Sobre a primeira, a economista afirmou que vem pôr em causa um valor central da nossa sociedade que é a autonomia, obrigando-nos a pensar de uma forma distinta, assumindo que temos sempre algo a dar e a receber, numa relação que se estabelece entre humanos mas também com outras criaturas. Sobre o segundo – o apelo à gratuidade – a encíclica sublinha que esta impõe uma relação de reciprocidade, não utilitária, e apela a um modo de estar diferente que colide com a visão atual de que o que não é eficaz, eficiente e útil não serve para nada. No terceiro ponto, a economista lembrou a fragilidade extrema do nosso mundo, seja a nível ecológico, económico, social ou eclesial, mas acrescentou que, perante essa fragilidade, o Papa Francisco pediu-nos que ousássemos criar algo novo, que ainda não conhecemos, com criatividade e sem medo.
Depois de um momento de convívio e almoço, brindado por uma aberta do sol, escutaram-se testemunhos de organizações que já têm projetos concretos que põem a Laudato Si em ação. Desde o apelo ao perdão da dívida dos mais pobres, até ao envolvimento na próxima Conferência das Partes das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, são já muitas as iniciativas e ações que concretizam o espírito da Laudato Si e que mostram o caminho percorrido e o muito que tem sido feito nesta última década.
Durante a tarde, os participantes foram ainda convidados a integrar rodas de escuta em que partilharam práticas e ideias para o futuro no que diz respeito aos estilos de vida, à educação e ao envolvimento cívico e político e também à espiritualidade e às práticas pastorais em matéria de ecologia integral. Estes contributos serão integrados numa carta à Igreja Portuguesa que este encontro irá escrever nos próximos dias, e que será divulgada publicamente, como exemplo do caminho percorrido e com sugestões para o que deverá ser feito no futuro.
O dia terminou com uma oração pela Criação, com o cântico de salmos e a leitura de algumas palavras do Papa Francisco.
