Um poeta sírio a caminho do Natal

Um cântico esplêndido, o maior pintor espanhol e um poema sírio simplesmente belo: uns breves minutos de leitura que o ajudarão a preparar o coração para o Natal que se aproxima.

Um cântico esplêndido, o maior pintor espanhol e um poema sírio simplesmente belo: uns breves minutos de leitura que o ajudarão a preparar o coração para o Natal que se aproxima.

1. Como mel para a boca

O coro do King’s College de Cambridge canta o arranjo que John Rutter fez sobre a composição de Adolphe Adam, O Holy Night.

2. Um texto bíblico 

Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida.
E, quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz. (Lc 2, 3-6)

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Bartolomé Esteban Murillo, Virgen de la Servilleta (cerca de 1666), Museu das Belas Artes, Sevilha

O título desta pintura de Murillo – literalmente, “Virgem do Guardanapo” – remete para uma lenda segundo a qual um monge teria pedido ao pintor que lhe pintasse uma Virgem com um menino em pequeno formato, para que se concentrasse nas suas orações. O pintor teria acedido, pedindo-lhe que lhe desse a tela, ao que o monge terá respondido estendendo-lhe o guardanapo (de pano, obviamente!), que o pintor utilizou sem dificuldade…

 

3. O esclarecimento

Hoje, para nos guiar nesta secção, escolhemos a via poética. Entre os comentários bíblicos, os hinos litúrgicos ocupam um lugar muito particular. São uma forma de exaltar poeticamente determinados aspetos do Mistério. Nesta matéria, Santo Efrém, o Sírio (c.306 – 373) é um mestre. Nascido em Nisibi numa família cristã, foi o mais importante representante do cristianismo de língua síria e conseguiu conciliar de modo único a vocação do teólogo com a de poeta. Os cristãos sírios chamam-lhe “a harpa do Espírito Santo”, tendo incluído os seus hinos na liturgia síria.

Segundo nos diz o Papa Bento XVI, numa audiência dedicada a este Santo, “a especificidade do seu trabalho é que nele teologia e poesia se encontram. (…) A poesia permite-lhe aprofundar a reflexão teológica através de paradoxos e imagens”. Na mesma linha, sublinha ainda Olivier Clément, “o pensamento de Santo Efrém é completamente semítico, lírico, feito de imagens. Imagens que é necessário contrapor umas às outras, levar a que se contradigam entre si para sugerirem o carácter inefável do Mistério [inefável: aquilo que não pode ser exprimido pela linguagem]”.

 

Cantado habitualmente na noite de Natal, o seu poema sobre a Natividade de Jesus – a cena bíblica que hoje queremos ilustrar – é, sem dúvida, um dos hinos mais admiráveis deste poeta sírio (Hino “De nativitate” 11,6-8).

 

“O Senhor vem a ela para se fazer servo.

O verbo veio a ela
para se calar no seu seio.
O relâmpago veio a ela
para não fazer barulho algum.
O pastor veio a ela
e eis o Cordeiro nascido, que humildemente chora.

Dado que o seio de Maria
inverteu os papéis:
Aquele que criou todas as coisas
entrou em sua posse, mas pobre.

O Altíssimo veio a ela (Maria),
mas entrou humilde.
O esplendor veio a ela,
mas revestido de humildes vestes.

Aquele que prodigaliza todas as coisas
conheceu a fome.
Aquele que dessedenta todos
conheceu a sede.

Nu e despojado saiu dela,
ele que reveste (de beleza) todas as coisas”.

4. Um quadro final 

Em vez de uma palavra, deixamos-lhe hoje mais um quadro do pintor espanhol. Esperamos que esta atitude de adoração dos pastores nos ajude, neste terceiro domingo de Advento, a preparar o coração para o nascimento deste Menino “nu e despojado (…) que reveste de beleza todas as coisas”.

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Bartolomé Esteban Murillo, A adoração dos Pastores (óleo sobre tela, 1646-50), Museu do Hermitage, São Petersburgo.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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