Joan Miró e a morte da pintura

Depois do êxito de 2017, Miró regressa a Serralves e ao Porto. A exposição “A morte da pintura” é bem mais pequena, mas não deixa de ser representativa de um percurso plástico marcado por uma procura incessante. Mais uma sugestão Brotéria.

Depois do êxito de 2017, Miró regressa a Serralves e ao Porto. A exposição “A morte da pintura” é bem mais pequena, mas não deixa de ser representativa de um percurso plástico marcado por uma procura incessante. Mais uma sugestão Brotéria.

Miró é um dos nomes grandes da arte do século XX e goza de uma enorme popularidade e fama, como ficou comprovado pelos mais de 240 mil visitantes que acudiram a Serralves, entre Outubro de 2016 e Junho de 2017, para ver a exposição Joan Miró: Materialidade e Metamorfose. De regresso ao Porto, a exposição que agora se mostra na Casa de Serralves é bem mais pequena, ocupando apenas o rés do chão do edifício.

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 Filipe Braga, © Fundação de Serralves, Porto.

O título da exposição suscitou-me curiosidade: “A morte da pintura”. Miró é um dos grandes nomes da arte do século XX; um artista prolífico (pintor, escultor, ceramista, ilustrador, gravurista) cuja actividade criativa se estendeu praticamente até ao final da sua longa vida. Dele se diz que sendo extremamente reservado, foi pela arte que manifestou a sua rebeldia e a sensibilidade aos acontecimentos políticos e sociais do seu tempo, e essa oposição de forças (a natureza social contida e a exuberância criativa) contribuiu amplamente para a criação da sua linguagem plástica tão única e original. Quer isto dizer que a arte foi o seu principal modo de expressão. Estaria este homem interessado em assassinar a pintura? Na verdade, trata-se de um bom título chamativo capaz de atrair a atenção do público. Uma vez pago o bilhete (caro) e entrada na Casa de Serralves, percebi num primeiro percurso (ainda antes de pegar no folheto à disposição de cada visitante) que aquilo que se expõe – pelo menos a meus olhos – não parece advogar qualquer assassinato da pintura.

Numa segunda ronda pelas obras expostas, já munida do folheto, leio que Joan Miró teria afirmado “sem rodeios querer «assassinar a pintura»”. E ainda: “… foi em Miró que a ideia do assassinato estético teve maior repercussão”. Mais à frente lê-se: “À medida que os fundamentos do alto modernismo – autonomia estética, mestria técnica e originalidade – perdiam o domínio sobre a produção artística, os críticos começaram a anunciar a «morte da pintura» como um facto consumado. Embora as novas práticas – incluindo a arte processual, a performance, a land art e a instalação – tivessem vindo preencher o vazio, Miró recusou-se a capitular […] pôs de novo a pintura à prova sem, contudo, a abandonar totalmente”. Evidentemente, a “morte da pintura” não deve ser interpretada à letra. Morte apenas no sentido de que a arte predominante na época se tornaria algo do passado, porque a sua carreira o levou mais à frente, o fez ultrapassar vários patamares, muitas vezes de forma chocante ou excessiva. Miró procurou (tal como outros artistas em todas as épocas históricas) ir mais além nos cânones, nos meios, nos suportes, nos conceitos e nas idealizações.

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 Filipe Braga, © Fundação de Serralves, Porto.

Penduradas sobre o hall principal da casa estão duas telas queimadas de 1973, da série Toiles Brûlées. Quem olha para elas pensa que foram resgatadas de um incêndio provocado por um acidente, um desastre, uma guerra… Ou que o artista, desolado ou frustrado com o seu trabalho, as tentou destruir (acto que não seria inédito na história da arte). Na realidade, são obras acabadas. Estão como o artista pretendeu. Numa das paredes do mesmo hall é projectado, em modo contínuo, um vídeo de 20 minutos de Francesc Català Roca sobre o modo de criação das telas. Fica bem patente o cuidado na execução da obra e o controlo sobre a acção do fogo. Trata-se de uma metodologia híbrida composta por uma idealização e uma quase eliminação. Quase, porque não chega a ser. Por muito impressionáveis que sejam algumas das cenas do filme em que labaredas altas parecem prontas a consumir toda a tela, esse processo é orientado e conduzido. Portanto, o fogo não é um elemento de destruição, mas sim de construção. É uma técnica na realização da obra de arte. É um dos meios usados, tal como os cortes na tela e a tinta acrílica.

Fogo, cortes, lacerações, perfurações são bem visíveis em algumas das obras patentes. Porém, a sua utilização, bem como o uso de diversos materiais como meio pictórico não é nova. Lucio Fontana, Yves Klein, Alberto Burri, Leo Bontecou, Antoni Tàpies são artistas que antes de Miró laceraram as telas, ou as queimaram, ou usaram materiais diversos como areia, resina, verniz e tecidos. São também artistas, tal como Miró, cuja obra é marcada por uma componente de experimentação e uma enorme ousadia no descerrar de novos caminhos artísticos, teóricos e filosóficos.

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Creditos fotos Miró: Joan Miró Toile brûlée III, 4-31 dez 1973 Tinta acrílica sobre tela queimada 195 x 130 cm Col. Estado Português, em depósito na Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto.

Neste conjunto de 32 obras, datadas entre 1962 e 1974, mais do que a aparente destruição das obras (telas e tapetes queimados) impressiona-me a utilização de uma paleta reduzida, quase sempre composta pelo preto dominante – castanho, no caso dos Sobreteixim – o branco que o delimita e a utilização quase pontual de azul, vermelho, amarelo e verde. Reconhecem-se signos típicos da sua obra, como os círculos, os “olhos”, os “pássaros”, mas a cor vibrante e dominante que é em tantas das suas composições de outras fases uma espécie de assinatura, parece cada vez mais arredada. Sobretudo nos Sobreteixim (tapetes).

A pintura não foi assassinada por Miró. Nem por Fontana, ou Klein, ou Burri ou Tàpies porque o estilo de pintura que estes homens recusaram não deixou de existir. A pintura (a arte) foi transformada, reconvertida, transmutada. Recriada.

Olhando para as obras expostas, para os Sobreteixim e para as telas queimadas, é inevitável pensar na fénix que renasce das cinzas. Talvez Miró procurasse renascer. De novo. O seu longo percurso plástico foi sempre marcado por uma procura incessante. Influenciado por diversos movimentos artísticos (surrealismo, dadaísmo, expressionismo, abstraccionismo) a sua evolução enquanto artista é tudo menos imutável ou cristalizada, antes se caracteriza por um permanente devir, uma constante renovação e reinvenção. Por isso é um génio. Por isso o seu legado é perenal.

 

Foto Capa: Filipe Braga, © Fundação de Serralves, Porto.


Joan Miró e a morte da pintura 
Museu de Serralves, Porto (mapa Google)
até 3 de Março de 2019
Horário
Preços
Informações: (+351) 226 156 500 I serralves@serralves.pt

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta seção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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