E os homens puderam novamente ver a Deus

A música é de Mozart e as imagens são de Jesus: puro prazer!

A música é de Mozart e as imagens são de Jesus: puro prazer!

1. Como mel para a boca

A pergunta da semana passada era: pode-se representar Deus em imagens? Claro que sim!, responde o cristianismo: pode-se representar Deus em imagens, já que foi Ele mesmo que se deu a ver assumindo um corpo humano! É precisamente a esse corpo que Mozart dedica um dos seus mais belos hinos, Ave verum corpus (“Ave, verdadeiro corpo de Maria nascido” – poema litúrgico do séc. XIV atribuído ao Papa Inocêncio IV), composto em Junho de 1791 para a festa do Corpo de Deus. ♪ ♫


2. Um texto bíblico

O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida, – de facto, a Vida manifestou-se; nós vimo-la, dela damos testemunho e anunciamo-vos a Vida eterna que estava junto do Pai e que se manifestou a nós – o que nós vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós estejais em comunhão connosco.

E nós estamos em comunhão com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo.

Escrevemo-vos isto para que a nossa alegria seja completa.

Primeira Epístola de São João 1,1-4


3. O esclarecimento

Pode-se representar Deus em imagens?

  • Não, se tivermos em conta o Antigo Testamento, sobretudo o Decálogo.
  • Sim, se o nosso ponto de referência for o Novo Testamento. É sobre isso que aqui vamos falar…
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O Menino Jesus (c. 1500), Museu do Louvre, Paris, França.

No texto bíblico que hoje lhe apresentamos, São João diz-nos que os seus olhos O viram e que as suas mãos O tocaram.

Ele está a referir-se, evidentemente, ao mistério de Cristo, Deus feito carne. Na pessoa única de Jesus Cristo, a unidade sem confusão da natureza humana e da natureza divina sela a reconciliação de Deus com a humanidade.

E porque Deus se fez homem, o ser humano é novamente capaz de contempar Deus em Jesus e, por isso, representá-Lo em imagens: “Quem me vê, vê o Pai”, diz Jesus (João 14,9).

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Desenho preparatório para as cabeças de marionetas em madeira esculpida (séc. XX), MuCEM, Marselha, França

| Algumas definições |

Em grego, distinguem-se dois tipos de imagens ou, melhor, duas formas de estar diante das imagens.

  • A imagem é eidôlon (εἴδωλον), “ídolo” em português, quando nos esquecemos do que ela representa. Dito de outro modo, a imagem torna-se uma realidade em si mesma, passível de adoração, sem que se considere o que ela representa na origem – isto é de evitar!
  • A imagem é eikôn (εἰκών), “ícone” em português, – e isto é maravilhoso! – quando compreendemos e bem que ela não rivaliza com o seu modelo: ela reenvia à realidade que representa. Desse modo, o ícone não é venerado em si mesmo, mas abre-nos à veneração do que ele representa.

Quando os cristãos veneram os ícones, fazem-no na medida em que eles “re-presentam” Deus e as realidades divinas. Não se trata de criar ou adorar ídolos!

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Ícone da Crucificação (segunda metade do séc. XII), Mosteiro de Santa-Catarina, Sinai, Egipto.

4. E ainda uma palavra final…

João Damasceno, um Padre da Igreja de língua grega, escreveu palavras magníficas sobre este tema. Nascido no séc. VIII, em Damasco, na Síria, terminou os seus dias no deserto da Judeia, perto de Belém. No seu tempo, as imagens tornaram-se um problema para muitos cristãos, sobre a influência do Islão nascente, e a iconoclastia (do grego eikôn, “imagem”, e klaô, “destruir”) tornou-se uma forte tentação. Aqui fica a magnífica resposta que ele dirigiu a quem destruía deliberadamente imagens sagradas:

“Em tempos passados, Deus nunca tinha sido representado em imagens, ele que não tem nem corpo nem rosto. Mas agora, Deus foi visto na carne, viveu entre os homens; eu represento o que é visível em Deus. Eu não venero a matéria, mas o criador da matéria que se fez matéria por mim, e se dignou habitar na matéria e realizar a minha salvação através da matéria. Não posso, por isso, deixar de venerar a matéria através da qual Ele me assegurou a salvação. Mas, não a venero de todo como Deus! (…) Que não se ofenda, então, a matéria: ela não é desprezível, já que nada do que Deus fez é desprezível.”

Contra imaginum calumniatores (Discurso contra os que caluniam as imagens) 1,16.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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