O olhar

Olhar implica também uma dimensão coletiva, termos a cabeça para cima, saber que estamos acompanhados e que acompanhamos.

O olhar, diria eu, talvez de forma arriscada, é a coisa mais importante na forma como pensamos o mundo, como tencionamos que ele seja. Pelo menos, é através desse “olhar” que identifico as necessidades que existem (as minhas e as dos outros), que oriento os meus desejos e dou os primeiros passos para as pequenas mudanças do dia-a-dia. Sem haver essa primeira experiência, que é muito mais do que “ver” apenas, nada do resto aconteceria. Foi por ter havido gente que se arriscou a “olhar” de forma profunda e compassiva para o mundo, por depois ter formulado um desejo de fundo de um mundo mais igual e bonito, que nasceram os Gambozinos, e tantas outras coisas. Até o próprio Deus precisou de ter “olho para a coisa” para nos enviar Jesus e mudar a história da humanidade.

Tendo isto em conta, este olhar é muito menos uma experiência da visão, ligada aos nossos olhos e que obriga a que estes estejam abertos, e muito mais uma experiência do ser no seu todo, do coração. Se fosse professor, e tivesse de inventar uma fórmula geral para explicar este olhar diria assim: “olhar = ver + sentir/compaixão/perceber”. Se fosse para ir mais fundo ainda, diria que “olhar = ver + Jesus”. Acho que esta segunda fórmula é mais acertada: Jesus não é, como sabemos, só uma figura histórica que disse e fez coisas bonitas. Mais importante que isso, deixou-nos a sua lógica, o seu modo de viver, de pensar, de agir, acessível a todos, sem exceção. E, portanto, se virmos o mundo, os outros, com uma lente com a graduação de Cristo, acho que estaremos a “olhar”. Uma pessoa vai deixar de ser só uma pessoa; vai passar a ser uma oportunidade de amar, de encontro e partilha. A paisagem que vejo vai deixar de ser só um monte de verduras bem alinhadas que davam uma boa fotografia e passam a ter em si a beleza criada de algo que nos foi dado para cuidarmos. As injustiças e desastres vão deixar de ser um poço de lamentações sem saída, e poderão começar a ser motivos para pormos mãos à obra e, aos poucos, começar a construir pequenos Céus, ainda na Terra.

Sei que isto são afirmações que podem parecer demasiado esperançosas, e sei também que, muitas vezes, o nosso olhar está gasto, está irritado, impaciente. O que é normal. O importante, diria ainda, é voltarmos sempre à fonte, irmos sempre comprar as lentes de Jesus. Mesmo nestes momentos em que só conseguimos ver com os olhos, não com o resto, é importante termos essa confiança de que, mais tarde ou mais cedo, vemos as coisas de maneira diferente. Para melhor. Se há algo que caracteriza esse “olhar” é a esperança, e sem ela não caminhamos. Uma esperança que vem da Fé, mas também na crença em nós próprios como atores valiosos, únicos e úteis neste mundo. Olhar implica também uma dimensão coletiva, termos a cabeça para cima, saber que estamos acompanhados e que acompanhamos. Com isso, esse “olhar” torna-se atento; a individualidade e o egoísmo acabam por ter o mesmo efeito do que termos os olhos fechados, ou até pior.

Peço, para mim e para todos nós Gambozinos, um olhar atento e de esperança para que, através das nossas mãos, possamos ir moldando, construindo e reparando o que está ao nosso alcance, e ir sonhando com um mundo como Jesus o quer. “Olhar = ver + sentir/compaixão/perceber = ver + Jesus”.

António Serrano