Fazer das tripas coração

Por isso mesmo, abre-se aqui uma janela de oportunidade para “fazer das tripas coração”, ou seja, para transformar a renúncia num movimento de doação e fazer um verdadeiro sacrifício.

Reza a lenda que, no início dos Descobrimentos, os portuenses decidiram encher os barcos rumo a Ceuta com toda a carne da cidade, deixando apenas na cidade as tripas dos porcos. A partir destas, os habitantes do Porto reinventaram a sua alimentação e transformaram um prato execrável numa das iguarias da cidade – as “tripas à moda do Porto”

Nos dias de hoje, a penitência foi-nos imposta, muito antes de haver Quaresma. O confinamento, o isolamento social, a impossibilidade de ir aos bairros, os gambozinos que apenas vemos através de um ecrã, apenas demonstram que as tripas já as temos, sem que tenhamos decidido por elas. (cf. texto do P. José Frazão no Ponto SJ)

Por isso mesmo, abre-se aqui uma janela de oportunidade para “fazer das tripas coração”, ou seja, para transformar a renúncia num movimento de doação e fazer um verdadeiro sacrifício. Ora, à letra, sacrifício significa “um feito sagrado”, por isso fazer um sacrifício significará algo como “tornar sagrado aquilo que se faz”. Se a quarentena nos impõe o que fazer, cabe-nos a nós torná-lo sagrado!!

Para isso, apercebi-me estar a meio de um caminho de Quaresma, que me pode levar à conversão da renúncia em doação através de 3 movimentos e ajudado por 3 padroeiros. Convido-vos a juntarem-se a mim!

1.º ACOLHER – S. José

A renúncia está já presente, não há como escapar, nem há necessidade de criar muitas outras. Tal como aconteceu a S. José, as nossas vidas e planos foram trocados e desiludidos. Por isso, há que agarrar a vida e acolher a realidade, confiado que “a vontade de Deus, a sua história e o seu projecto passaram também através da angústia de José. Assim ele ensina-nos que ter fé em Deus inclui também acreditar que Ele pode intervir inclusive através dos nossos medos, das nossas fragilidades, da nossa fraqueza.” (Patris corde, Papa Francisco)

2.º AGRADECER – S. Inácio de Loyola

O Peregrino, que sonhava viajar e ficar por Jerusalém, acabou os seus dias limitado a Roma, onde, devido ao seu cargo de Geral, passava a maior parte do tempo sentado à secretária a escrever cartas para toda a Companhia de Jesus. Ainda assim, de duas em duas horas rezava o Exame, começando sempre dando graças, confiado de que esta sua missão era para a maior glória de Deus. Agradecer o que custa, custa, mas é porta de entrada para a Graça de Deus.

3.º DAR – B. Francisco Gárate

“A partir da portaria de um instituto de ensino, este jesuíta (…) tornou presente a bondade de Deus pela força evangélica do seu silencioso e humilde serviço” (Papa João Paulo II). Na verdade, o extraordinário da vida do Irmão Gárate foi a sua capacidade de fazer da doação de si mesmo, o sacrifício contínuo de uma “vida ordinária”. Não é preciso complicar! Há que me pôr ao serviço daqueles que me estão próximos, em casa, ou pegar no telefone e fazer-me próximo!

 

Acolher, agradecer e dar. Restringido ao ordinário de casa, estes são 3 movimentos que podem ajudar a “fazer das tripas coração”, com o custo que isso inevitavelmente traz. Convertendo a renúncia em doação, seguindo o exemplo destes 3 santos caseiros, podemos assemelhar-nos a Jesus, que “tomou o pão (o seu corpo), deu graças e deu-o aos seus discípulos”, encaminhando-nos para a glória da Ressurreição Pascal.