Homeland – a exposição ao real das vidas

Ainda que seja um belo exemplo, esta série não escapa aos pontos fracos mais comuns e correntes do género: a religião e a cultura islâmica são representadas de forma simplista.

Ainda que seja um belo exemplo, esta série não escapa aos pontos fracos mais comuns e correntes do género: a religião e a cultura islâmica são representadas de forma simplista.

Resisti bastante a ver o primeiro episódio de Homeland: no mundo pós 11 de setembro, abundam filmes e séries sobre “contra-inteligência”, “guerra contra o terrorismo” e incursões dos EUA no mundo árabe. O meu muro de preconceito ruiu perante o ataque concertado de três fatores: a insistência de um amigo; um certo FMO – fear of missing out, tendo em conta que em fevereiro de 2020 estreava a oitava e última temporada –; e o tom geralmente positivo da crítica, principalmente em relação às primeiras três temporadas.

Afinal, não é tanto o tema, mas a arte com que a história nos é entregue que nos deve levar a julgar uma série. A nível técnico, o mais notável desta série é a omnipresença de uma tensão murmurada através da forma como vão alternando planos. Parca em música e efeitos sonoros, somos introduzidos na história à medida em que desequilíbrios entre os distintos protagonistas se vão gerando, levando-nos a questionar constantemente quem é merecedor da nossa confiança.

O eixo central da história desenrola-se entre Carrie Mathison (Claire Danes) e Saul Berenson (Mandy Patinkin), protegida e mentor, ambos membros da CIA, com duas personalidades claramente contrastantes, sendo Carrie mais intuitiva e temerária, e Saul mais ponderado e temeroso. A personagem Carrie é a verdadeira protagonista, revelando-se uma patriota obstinada, inteligente e notoriamente intuitiva. Claire Danes dá corpo e voz a esta personagem de forma notável, chegando ao ponto de adquirir tiques de fala, faciais e corporais, em momentos de maior tensão emocional ou de vertigem, levando-nos a compreender melhor porque ganhou dois Emmy’s de cinco nomeações pelo seu desempenho.

A protagonista não cai nas caixas comuns da heroína masculinizada ou da femme fatale, e a série evita todas as caricaturas de género – quer as androcêntricas (os homens são capazes; as mulheres são frágeis); quer as ginocêntricas (os homens são primitivos; as mulheres são inteligentes e tenazes – como nos Simpsons ou no Universo Cinematográfico da Marvel). O que temos é a representação de uma pessoa real, com uma hierarquia de valores, capaz de grandes sacrifícios, de profundas perceções e de enormes erros.

Ainda que seja um belo exemplo, esta série não escapa aos pontos fracos mais comuns e correntes do género: a religião e a cultura islâmica são representadas de forma simplista, com personagens às quais falta uma certa densidade; é patente a tendência para branquear a tortura ou outros métodos de pressão em interrogatórios. Tendo os normais elementos do género – diálogos interessantes e bem estruturados, traições, traições duplas, traições triplas, tramas amorosas, twists, – o mais extraordinário de Homeland é a exposição ao real das vidas destas pessoas, como quem caminha conscientemente, na tentativa de travar o próximo ataque, entre dois abismos: o da imersão asfixiante no dever que eviscera toda a dimensão relacional e o da desagregação pessoal pelas decisões tomadas.

 

HOMELAND

Género: crime, drama, espionagem

Duração: 55 minutos

País: EUA

Idioma original: inglês

Produtores: Alex Gansa, Howars Norton

Distribuição: NETFLIX (até à temporada 7)

Data de estreia: 02.10.2011

N.º de temporadas: 8

N.º episódios: 85

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta seção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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