Crítica de cinema: Columbus

Sobre Columbus disse Kate Erbland: "é uma festa para os olhos e para o coração”. Ainda está em exibição. Corram se não querem perder um extraordinário filme. Do melhor de 2018, assegura o crítico Carlos Capucho.

Sobre Columbus disse Kate Erbland: "é uma festa para os olhos e para o coração”. Ainda está em exibição. Corram se não querem perder um extraordinário filme. Do melhor de 2018, assegura o crítico Carlos Capucho.

A respeito deste filme escrevia a crítica norte-americana Kate Erbland: “Columbus é uma festa para os olhos e para o coração”. Não posso estar mais de acordo. Foi assim que saí do visionamento deste maravilhoso filme.

Kogonada é um realizador sul-coreano que agora se estreia na longa metragem de ficção, não apenas como realizador mas também como argumentista. Mas se, nas longas, Kogonada é um estreante, tem, no entanto, atrás de si, uma importante filmografia de curtas metragens e documentários. E, a maior parte desses trabalhos, são filmes acerca de nomes importantes da cinematografia mundial. Entre eles está o do mestre japonês  Yasujirô Ozu (1903-1963). Estas referências são importantes. Kogonada é um cineasta repassado pelo estudo e pela observação do trabalho de importantes cineastas. Mas, no que toca ao discernimento de Columbus, é muito importante o envolvimento com Ozu. E quem desconheça em absoluto a obra deste clássico mestre do Japão pode reciclar um pouco através do visionamento, agora, em Lisboa, de uma das suas obras-primas. Refiro-me a Primavera Tardia (1949). Em Ozu, tão importante é a proposta temática e a dramaturgia que envolve os problemas das personagens dos seus filmes, bem como o envolvimento  dos cenários na trama fílmica e o contexto visual de que tira partido para a composição dos planos. Logo, do ponto de vista da sua câmara. Tudo, portanto, elementos a ter em conta para um enriquecedor olhar sobre Columbus.

O título do filme de Kogonada é feito sobre o nome da cidade capital do Ohio, nos Estados Unidos. Justamente, a estória que o realizador-argumentista nos conta, passa-se durante algumas semanas, em Columbus.

Um célebre arquitecto e professor sul-coreano vem a Columbus para proferir uma conferência, mas não chega a concretizá-la porque é vítima de um AVC e fica em coma no hospital.

Enquanto decide se prossegue estudos universitários a jovem Casey (Richardson) trabalha numa biblioteca da cidade ao mesmo tempo que é uma entusiasta de arquitectura, a arquitectura da sua cidade. Preparava-se, de resto, para ouvir a frustrada conferência do professor. A Columbus chegara entretanto o filho do arquitecto, Jin (Cho), para acompanhar o estado do pai. Quer o acaso que a biblioteca se situe perto do hotel onde se alojara o arquitecto e onde agora também está, no mesmo quarto, o filho. E, num extraordinário plano de acompanhamento – em que os personagens estão separados por um gradeamento que, finalmente, é aberto por uma entrada, colocando o par face-a-face, estes dois seres encontram-se pela primeira vez.

O início de Columbus é árduo para o espectador, porque este é obrigado a, lentamente, ir juntando as peças até elas assumirem um sentido. Quando num filme isso acontece, e não é proposto como efeito gratuito (o que não é o caso), o resultado é sempre positivo e o espectador sai beneficiado porque, uma vez ‘apanhado’, fica inteligentemente preso para discernir o que virá. E, aqui, o que vem, é profundamente humano, inteligente e visualmente deslumbrante.

Depressa nos damos conta que Jin e Casey são dois jovens com complexos problemas nas sua vidas. Jin não fala com o pai há mais de um ano. A relação entre ambos está  deteriorada porque o progenitor colocara a carreira à frente da importância da relação com o filho. E, na eminência da morte ou da cura, o filho enfrenta a situação com uma frieza dolorosa e revoltada. Quanto a Casey, a indecisão de prosseguir estudos superiores, em arquitectura, não existe tanto de um ponto de vista vocacional, ma sim, e de forma dramática, com motivo numa atitude protecionista de uma filha para com a mãe, outrora dependente, como consequência de irresponsáveis amores frustrados. Agora está precariamente saudável, sob o olhar e a companhia da filha, Casey. E ela teme que a sua ausência possa significar uma recaída.

Esta simples descrição dá para ver a complexidade de elementos humanos e pessoais que estão em jogo. E, na relação rica e, por sua vez complexa, que se estabelecerá entre aqueles dois jovens, serão encontradas algumas perspectivas de resolução que, evidentemente, não constituirão um fácil happy-end, mas tão só uma abertura para o futuro.

E, aqui, o que vem, é profundamente humano, inteligente e visualmente deslumbrante.

Carlos Capucho

Columbus, a cidade. Cidade que é uma das capitais, no mundo, onde a arquitectura modernista tem uma presença pujante. E é essa arquitectura que, de forma fantástica é assimilada no filme, tão protagonista como as pessoas. É que, se há filmes onde a estrutura formal é pretensiosamente ridícula, Columbus, bem ao contrário, é a apoteose do rigor da composição visual e, em última análise, do rigor total da construção fílmica. Além de soberba e afinada demonstração (bem na senda de Ozu) de ligar, de integrar, as almas e as vidas na componente expressiva do ‘cenário’, Columbus entrosa as formas artísticas da arquitectura nas pessoas, com os seus sentimentos e com os seus problemas concretos.

Columbus ainda está em exibição. Regra geral os media que incluem crítica de filmes, quase deixaram passar em branco, misteriosamente, esta pérola. Corram, se não querem perder um extraordinário filme. Do melhor de 2018.

 

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Carta oficial

Ficha técnica

Título Original Columbus  – Origem: EUA

Realizador: Kogonada

Elenco: John Cho, Haley Lu Richardson, Rory Culkin

Género: Drama Classificação: M 12

Duração: 113′

Data de estreia: 21-06-2018

Em exibição:  Lisboa:  El Corte Inglês(5ª 6ª Sáb 2ª 3ª 4ª 14h, 19h10 Dom 11h30, 14h, 19h10)    Porto: Arrábida às 19h00  (5ª 6ª Sáb Dom 2ª 3ª 4ª)

Música Original: Hammocck Pei 

Distribuição e cedência de imagens: Alambique Filmes 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta seção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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