Com a casa às costas

Aprender a fazer a mala para as férias deixando espaço para as surpresas de Deus. É esta a proposta desta família que se conheceu a caminho de Fátima para as "Férias com Deus" desta semana.

Aprender a fazer a mala para as férias deixando espaço para as surpresas de Deus. É esta a proposta desta família que se conheceu a caminho de Fátima para as "Férias com Deus" desta semana.

Por esta altura do ano, são muitos os que decidem tirar uns dias de férias e aproveitar o melhor que o Verão tem para nos oferecer. Procuramos um lugar de paz, onde possamos parar, respirar e quebrar com todas as rotinas de uma vida que teima em querer andar depressa de mais.

Mas, para muitos, ir de férias também significa enfrentar um verdadeiro dilema: fazer a mala!

“Que mala levo? A grande verde de mão ou a pequena encarnada com rodinhas? Quantas camisolas? Será que vai estar frio ou calor? Mais vale levar a mais do que a menos! E meias? Mais vale levar todas, que ter frio nos pés é a pior coisa do mundo.” Enfim, são tantas as perguntas e as decisões que temos de tomar ao longo deste processo que cada um o enfrenta de forma diferente: uns precisam de duas semanas e mesmo assim ainda ficam a pensar que deviam ter começado há mais tempo, para outros basta um ou dois dias antes da partida, uns arriscam na véspera e outros, os que gostam de viver no limite, desafiam todo um sistema ao fazê-lo no próprio dia, uma hora antes de sair de casa.

OK, malas feitas e lá vamos nós de casa às costas! Foi uma verdadeira aventura fechar todos os fechos (que inclui o típico pedido de ajuda: “podes te sentar em cima da mala para eu a conseguir fechar, por favor?”) e finalmente, apesar de acharmos que a mala pode ceder à pressão a qualquer segundo, o carro está arrumado e estamos prontos para partir.

É então que, já sentados, com os cintos postos e a ouvir aquele hit de Verão, que somos consumidos por um pensamento: “sinto que me esqueci de alguma coisa!”. Começamos a questionar tudo, percorremos toda uma lista mental, fazemos perguntas para o ar como “era preciso trazer toalha de banho?” ou “podes confirmar que tenho o carregador do telemóvel no bolso da frente da mochila, por favor?”, até que desistimos dizendo “seja o que Deus quiser”. E é aqui, neste “seja o que Deus quiser”, que começa a nossa proposta de oração.

Não deixa de ser engraçado que as férias de Verão são (para a grande maioria) o momento que assinala o fim de um longo ano de trabalho/estudos, mas que também marca o início de um novo ano: uma nova viagem! E se vamos de viagem, já sabemos: vamos ter de fazer as malas.

A vida tem a sua própria vontade e acontece-nos quer queiramos quer não. Até chegarmos ao final dessa grande viagem, temos de nos preparar constantemente para a fazer da melhor forma possível. Isso exige um olhar sincero para dentro, tomar grandes decisões e por vezes, ser capaz de deixar coisas para trás.

Para fazer esta mala do teu novo ano, vais precisar em primeiro lugar de parar, fechar os olhos e ouvir a música “Queira eu o que Deus quer”.

 

Agora, vais precisar de uma folha de papel branca, um lápis e de descobrir o Pablo Picasso dentro de ti. Afasta o telefone e qualquer outro objeto que te possa distrair. Vais precisar igualmente de coragem, assertividade e pobreza de espírito. Vamos a isso?

 

FAZER A MALA (da vida)

1)  Escolher a mala:

Um dos maiores atos de amor de Deus para com o Homem é a liberdade que nos dá. Hoje, no início desta nova viagem, Ele diz-te: escolhe! Grato por essa possibilidade começa por rezar/pensar na mala que queres carregar.

Será que vai precisar de ter rodas porque ainda estou a recuperar do ano que passou e me sinto sem forças para a carregar? Será que tem de ser muito larga porque vem aí um ano com muitos desafios? Ou prefiro algo que consiga levar às costas para me deslocar com rapidez?

Agora que já arrumaste ideias, começa por desenhar essa mesma mala. Esta será a tua mala, feita por ti e com as tuas características. Não tenhas medo se a tua mala for diferente da de todos os outros.

 

2)  Escolher o fundamental

Assim como levamos para férias coisas fundamentais como escova de dentes, roupa interior, desodorizante e outros, há coisas na nossa vida que são fundamentais. São aquelas coisas de que não prescindimos (família, amigos, trabalho, oração, entre outros).

Começo por compor a minha mala de viagem para o novo ano, com as coisas que para mim são fundamentais de levar. Procuro ser assertivo e capaz de perceber o que realmente importa na minha vida. Começo já a compreender que estas primeiras coisas que coloco na mala definem em parte o espaço que vou ter para o resto.

Só com Deus é possível centrar a vida no importante. Escuta-O e desenha tudo o que identificaste como sendo fundamental na tua vida.

 

3)  Escolhe o que vai e o que fica:

Por vezes, com a pressa de desfazer as malas quando voltamos de viajem, ficam coisas esquecidas, por arrumar. Meses mais tarde, quando decidimos voltar a viajar, pegamos na mesma mala e descobrimos um par de meias no bolso de lado, ou flyers, mapas e bilhetes na parte da frente, naquele bolso que nunca nos lembramos que temos.

Começo por identificar quais as coisas que vieram de trás.

Agora que descobri o que ficou por arrumar, olho para o meu próximo ano e penso o que quero levar novamente comigo? Penso também no que já não me faz falta e posso deixar para trás. Olho para este ponto com desprendimento e com consciência de que as minhas escolhas vão ter consequências que podem influenciar o decorrer do novo ano.

Depois de rezares o assunto, desenha e “coloca” dentro da mala as coisas que identificaste.

 

4)  Escolhe ter espaço para outros:

Quantas vezes vamos viajar com família ou amigos e alguém nos diz: “Estou sem espaço na minha mala para estes chinelos, podes levar?”. Faz parte! Ninguém viaja (na vida) sozinho e por isso é normal que por vezes tenhamos de partilhar espaço com terceiros. E que bom que é!

Que espaço da minha mala estou disponível a dar aos outros? Seja aos meus amigos, colegas, marido ou mulher, etc.

Quanto estou disposto a ceder, sabendo que uns chinelos de outros pode retirar-me a oportunidade de levar uns ténis a mais? Mais, quão atento estou aos outros para perceber que por vezes, mesmo sem haver um pedido, aquela pessoa precisa do espaço da minha mala?

Deus diz-nos “Ama o próximo como a ti mesmo”. Isto é, quer para os outros aquilo que queres para ti. Nesta perspetiva é fundamental ter um olhar próximo sobre os outros e garantir que há espaço/tempo para eles na tua vida. Identifica quanto espaço Deus te pede para dares aos outros. E nesse espaço desenha quais as pessoas ou as coisas que queres carregar na tua mala, de forma a aliviar os que te rodeiam.

 

5)  Escolhe não escolher:

Quase sempre levamos a nossa mala cheia até cima, sem nunca contar com o que vamos trazer da viagem. O nosso foco está no que vamos precisar, tentando controlar todos os pormenores, na esperança de que não nos falte nada. Mas, apesar da nossa tentativa de controlar tudo, viajar é uma decisão que implica também abrir-nos à surpresa do desconhecido e do que o mesmo nos pode dar.

Agora que já escolhi a mala, o fundamental, que já decidi o que quero levar novamente para o meu ano e o que quero deixar para trás, e também o espaço que consigo dar aos outros, é tempo de escolher não escolher. Isto é, escolher deixar um espaço livre que me permita voltar com as surpresas inerentes de uma viagem.

Identifico esta necessidade e desenho o espaço que quero deixar na mala para que Deus me surpreenda.

Esta proposta de oração surge porque ao longo da história da nossa família fomos descobrindo que não precisamos de levar a casa às costas para que a viagem seja boa e traga bons frutos.

DE MALAS FEITAS

Esta proposta de oração surge porque ao longo da história da nossa família fomos descobrindo que não precisamos de levar a casa às costas para que a viagem seja boa e traga bons frutos. Pelo contrário, temos vindo a perceber que quanto mais simples e despojados somos, mais Deus se revela nas nossas vidas.

De resto, a Sagrada Família foi um perfeito exemplo disso mesmo: juntos viajaram de Nazaré para Belém, de Belém para o Egipto, do Egipto para Nazaré, sempre e só com o essencial.

Assim, da próxima vez que for necessário fazer a mala, não tem de ser um suplício. Pelo contrário! Basta que sejamos capazes de olhar para a viagem com um olhar despojado e acreditar que o “seja o que Deus quiser” que estamos habituados a dizer no final do processo (como quem diz “olha, paciência”), seja afinal de contas o início de tudo, onde nos entregamos e permitimos que Deus se revele e nos mostre o melhor que a nossa vida pode ser.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.