“Estalagem volante” – o romance imperfeito

O livro de G. K. Chesterton é um romance de 1914 mas faz um retrato do nosso tempo. Em jeito de desafio, deixa uma séria suspeita sobre a vontade que temos de criar uma nova sociedade e um novo homem.

O livro de G. K. Chesterton é um romance de 1914 mas faz um retrato do nosso tempo. Em jeito de desafio, deixa uma séria suspeita sobre a vontade que temos de criar uma nova sociedade e um novo homem.

Antes de se dedicar ao jornalismo e à escrita, G. K. Chesterton tentou começar uma carreira em Belas Artes. Desde novo rabiscava todos os cadernos com figuras cómicas, às vezes bizarras. É famosa a história do primeiro dia em que, já noivos, ele e sua mulher Frances visitaram os pais de Frances, e quando à falta de outro assunto a mãe dela perguntou a Gilbert se gostava do novo papel de parede, ele respondeu levantando-se e, com um giz que trazia sempre no bolso, desenhou no papel de parede um retrato de Frances.

A “Estalagem Volante” é sob muitos pontos de vista um romance imperfeito: é um romance com “as costuras todas à mostra”, isto é, é um romance cuja “ideia” ou “tese” é anterior e superior à expressão encontrada, o que se manifesta, entre outras coisas, no facto de o narrador ou as personagens permanentemente explicarem o significado dos acontecimentos, o que está por trás do retrato de uma determinada personagem, o que significa cada cenário escolhido, etc. No entanto, essa imperfeição é assumida e, em certo sentido, até procurada. Este é um livro cartoon, um livro rabiscado, um livro exagerado, sem grandes pretensões senão a de fazer rir e com esse riso mostrar que é possível alegrar-se com a imperfeição dos homens, e expor, ao mesmo tempo, o ridículo da vontade cega, tipicamente moderna, de os fazer progredir a qualquer custo em direção a “o futuro dirá o quê”.

O livro conta a história do capitão Darloy, da marinha irlandesa, que se junta ao seu velho amigo inglês Humphrey Hump, depois de este ter perdido a sua estalagem, ‘O Velho Barco’, por causa de uma nova
lei (aprovada por Lord Ivywood) que proibia a venda de bebidas alcoólicas em estalagens. Os dois heróis quixotescos aproveitam um furo na lei e percorrem o país com um enorme queijo cheddar, um barril de rum e a tabuleta d’O Velho Barco’ numa tentativa heróica de manter viva a instituição da estalagem inglesa, atacada por uma aliança perversa entre o Islão e a aristocracia bem pensante inglesa, simbolizada pelo princípio do crescente: “o princípio do crescimento perpétuo para uma perfeição implícita e infinita”.

Exagerado, caricatural e provocador, este romance de 1914 faz um retrato do nosso tempo. Em jeito de desafio, deixa uma séria suspeita sobre a vontade que temos de criar uma nova sociedade e um novo homem, sobre a pressa que temos em proibir em nome de novas certezas morais acerca de tudo e mais
alguma coisa. Essa suspeita está na pergunta corajosa feita a Lord Ivywood: “julga que foi o senhor que fez o mundo, que o podia transformar tão facilmente?”.

 

A ESTALAGEM VOLANTE

CHESTERTON, G.K.

320 PÁGS., E-PRIMATUR, 2019

(16,90€)

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta seção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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