A atribulada encomenda da escultura de Nossa Senhora da Encarnação

Um convite ao deslumbramento: uma visita à Igreja da Encarnação em Lisboa com o olhar especialmente voltado para a escultura de Nossa Senhora da Encarnação de Machado de Castro. Fique a conhecer a atribulada história da sua encomenda.

Um convite ao deslumbramento: uma visita à Igreja da Encarnação em Lisboa com o olhar especialmente voltado para a escultura de Nossa Senhora da Encarnação de Machado de Castro. Fique a conhecer a atribulada história da sua encomenda.

A entrada na igreja da Encarnação é uma experiência de deslumbramento: o nosso olhar é convocado pela beleza da arquitectura, do trabalho em pedra, das esculturas, da pintura do tecto ou das várias telas que ornam o espaço. No entanto, é impossível não acabarmos por direccionar a nossa atenção para a escultura de Nossa Senhora da Encarnação, ao fundo do altar-mor.

Seja por falta de investigação, seja por falta de conhecimento de mais artistas, muitas esculturas dos sécs. XVIII e XIX são imprudentemente atribuídas a Machado de Castro. Contudo, a escultura de Nossa Senhora da Encarnação tem a investigação facilitada, uma vez que sobre ela existem escritos do Autor. Na Analyse Grafic’Orthodoxa, e Demonstrativa, Machado de Castro conta que foi eleito para esculpir a dita imagem, após uma da mesma devoção ter sido devorada por um incêndio. Na mesma obra, relata todos os pormenores da encomenda, como por exemplo a vontade de “que a cabeça da Imagem sobisse acima da moldura preta […] em que se acha o Throno” para “augmentar o bom effeito”.

Em verdade, o processo de encomenda não foi simples. Numa primeira instância, o Escultor de tal forma discordava das condições inflexíveis do Irmão encomendante que chegou a desistir da empresa, com a intenção de não realizar um produto que não reflectisse os seus valores estéticos.

Dois exemplos desta discordância encontram-se na existência ou não de um “plintho” sob a Imagem e na sua altura. Machado de Castro defendia que um “plintho” lhe daria mais decencia, mais distinção, mais respeito, e até mais augmento no effeito visivo”. O seu interlocutor, contudo, defendia que ficaria desproporcional. O Escultor contrapõe apresentando a hipótese de ladearem a Imagem dois Anjos, usando como argumento de persuasão o exemplo de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, em prata, igualmente ladeada por dois Anjos, mandada construir por D. João V em Roma (infelizmente destruída em 1755). Para além disso, o Artista preferia oito palmos de altura, ao invés dos onze/doze insistidos para supostamente lhe dar o “devido apparato”. Machado de Castro refuta, explicando que uma escultura de interior e que se pretende realista – duplamente ao contrário da estátua equestre – não pode ter dimensões irreais: “se nos he impossivel […] pertender huma total illusão, a mais exacta veresimilhaça he indispensavel o intentalla. E como se póde isto conseguir, dando uma corpulencia de Goliath a huma Donzella delicada, e de idade juvenil?”.

O Escultor não consegue convencer os encomendantes nem do desequilíbrio que um só Anjo causaria nem da não-heresia da presença de dois Anjos, apesar de todos os seus argumentos exegéticos. Assim, opta por não esculpir nenhum.

Havendo sido novamente chamado para a execução da escultura, foi-lhe desta vez dada toda a liberdade artística. Machado de Castro, mesmo assim, apresenta dois desenhos: um com Anjos e outro sem, tendo sido o primeiro escolhido. Este não só o satisfazia em relação à proporção, como em relação ao tema: o Anjo da esquerda seria o Arcanjo Gabriel, fazendo alusão à Anunciação através de uma divisa com a inscrição “Spiritus sanctus superveniet in te”, enquanto o Anjo da direita oficializaria a Imagem como devotiva da Encarnação ao segurar uma divisa com a inscrição “Fiat mihi secundum verbum Tuum”. Não obstante, para óbvio desagrado do Escultor, estando a construção dos Anjos a meio, levantou-se um “escrupulo de Religião, que fez suspender a execução do segundo Anjo, dizendo, que o Evangelho só faz menção de S. Gabriel”. O Escultor não consegue convencer os encomendantes nem do desequilíbrio que um só Anjo causaria nem da não-heresia da presença de dois Anjos, apesar de todos os seus argumentos exegéticos. Assim, opta por não esculpir nenhum.

Na segunda parte deste mesmo documento, Joaquim Machado de Castro prolonga-se numa explicação de como a representação dos dois Anjos não seria contrária ao Evangelho. Fá-lo tão eloquentemente que demonstra como é um homem cuja cultura ombreia até os teólogos da sua época. Esta sua defesa é também exemplo da sua atitude aguerrida e determinada que tanto o caracterizou e o notabilizou ainda mais.

Na impossibilidade de me estender sobre este incontornável Artista e as suas esculturas, desafio o leitor a, pelo menos, ler na íntegra o documento no qual me baseei para este pequeno artigo, dado o interesse histórico, sociológico, artístico e teológico que guarda.

Igreja da Encarnação

Largo do Chiado, 15, 1200-108 Lisboa
Tel: +351 213 424 623
Horário: 7h30-20h

Metro: Baixa-Chiado, saída Largo de Camões

 

 

 

 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta seção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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