Ano novo, vida nova

"Não será este um mote que nos empurra para a passividade?"

“Ano novo, vida nova” – uma frase que tanto se ouve nestes tempos. E ainda bem que assim o é. Parece-me que traz esperança, abre o horizonte, muda o olhar! Relembra-nos que temos ainda muito pela frente, que há mais caminhos, mais formas de atingir o objetivo último – encontrar Deus na nossa vida.

Depois desta grande festa do Natal, em que Deus se faz pequenino e se torna um de nós, temos também um novo ano, que nos traz então uma nova oportunidade de recomeçar. Olhando para esta frase, sinto sempre um misto de emoções, porque se por um lado traz esta esperança de que falava, por outro parece que é apenas aqui que podemos recomeçar. E que se falharmos, já só podemos voltar para o ano. Parece-me importante que esta não seja a mentalidade com que entramos no novo ano, porque este Deus que tanto bem nos quer está constantemente a chamar-nos a recentrar o coração e a recomeçar.

Há uns dias li um artigo do P. Nuno Tovar de Lemos, sj. (que desde já aconselho – “Isto aqui dava um belo pinhal!”) que veio precisamente em virtude deste ano novo. E claro (porque sou uma pessoa que pensa muito sobre as coisas), surgiu-me um novo olhar sobre a frase “ano novo, vida nova” – não será este um mote que nos empurra para a passividade? Como se, apenas porque muda o ano (que na verdade se trata de uma mera mudança de dia à qual damos uma importância especial), tudo mudasse sem que fizéssemos nada. Quase como se não tivéssemos de trabalhar por aquilo que queremos.

É engraçado, porque a frase leva-nos ao encontro daquilo que mais queremos e gostamos – o nosso conforto, seguro e que não exige esforços. O problema é que, se não pensarmos para além disto, acabamos por ficar no mesmo sítio, estagnados. Confesso que me tenho deparado várias vezes com a dualidade atividade-passividade. Sou chamada a confiar! E partindo daqui, acaba por ser fácil ficar naquilo que me é confortável e não sair da bolha. Mas sou também chamada a agir, a fazer-me ouvir e a ser exemplo d’Ele. Muitas vezes, tudo isto me parece contraditório, e por isso surge a dúvida – para onde me viro? Qual destes caminhos é o certo? Tenho percebido cada vez mais que o segredo de uma vida bem vivida, à maneira de Jesus, passa muito por encontrar o equilíbrio, e acho que neste caso consigo encontrá-lo na expressão conhecida de “ser contemplativo na ação”. Deus chama-nos a confiar, mas a agir dentro desta confiança. Diria que no fundo é irmos percebendo que só temos poder até um certo ponto (e, portanto, até aí devemos agir). De resto, há muito que não depende de nós, e, por isso, só nos resta confiar. Atenção, não estou a dizer que seja fácil! Mas acho bonito o caminho que vamos fazendo a partir do momento em que vamos ganhando consciência de certas coisas!

“Ano novo, vida nova”. Afinal há tanto para dizer sobre esta frase!

Que este novo ano nos traga esta esperança e olhar renovado que vem do Menino que nasceu, mas que saibamos também que não é só aqui que podemos recomeçar, porque somos sempre chamados a fazê-lo! Que este seja um ano em que nos deixamos tocar por Ele, que nos quer encontrar!

Um bom ano a todos 🙂

 

Teresa Cardoso da Costa