Visitar um museu: O Chillida no seu sítio

Chillida Leku: onze hectares com mais de quarenta obras de Eduardo Chillida (1924-2002) que se encontram em Hernani, uma pequena aldeia a 15 minutos de carro de São Sebastião, no País Basco em Espanha. É a sugestão Brotéria desta semana.

Chillida Leku: onze hectares com mais de quarenta obras de Eduardo Chillida (1924-2002) que se encontram em Hernani, uma pequena aldeia a 15 minutos de carro de São Sebastião, no País Basco em Espanha. É a sugestão Brotéria desta semana.

Chillida Leku, são onze hectares com mais de quarenta obras de Eduardo Chillida (1924-2002). A maioria delas de enormes dimensões. Este espaço encontra-se em Hernani, uma pequena aldeia a 15 minutos de carro de São Sebestião.

O lugar é de grande beleza. Com uma paisagem típica do País Basco. Deve ser ponderado o momento da visita, através do calendário natural, dado que as estações fazem efetivamente parte da experiência. O bosque, o amplo espaço verde, desenha o cenário onde as peças foram instaladas ao longo de várias décadas pelo próprio autor juntamente com a sua esposa, Pilar Belzunce (1925-2015). Depois de comprarem um terreno e um velho casario da família Zalabaga, foi despendido um enorme esforço na recuperação de todo o complexo. Não havia pressa e, como afirma Pilar, ‘Eduardo assumiu todo o espaço como uma escultura’. No tempo da natureza e sobre as densas resistências que a matéria oferece ao construtor, foram procurados o rigor e a poesia inerente ao trabalho e à vida de Chillida. Esperaram-se dois anos só para dar entrada no terreno a um carvalho de grande porte que trespassa todo o casario, deixando ver o impressionante pé-direito do edifício. Essa árvore foi escolhida pelo artista na mesma floresta de onde provinham as restantes vigas presentes na ruína.

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Exterior Chillida Leku ©Sucesión Chillida y Hauser & Wirth.. Fotografia de Mikel Childa

A luz guipuscoana costuma ser marcada por dias cinzentos – nas palavras do próprio Chillida: “la negra luz de mi tierra basca”. Esse obscuro define atmosferas de neutralidade e limpeza. Por isso, neste jardim-escultura de Chillida, são marcantes os contrastes entre o verde da vegetação e o branco dos dias claros que fazem com que essas peças de aço brotem com agilidade inesperada. Trata-se de toneladas de um material especialmente dúctil quando levado ao rubro, que ganharam formas nas mais sofisticadas forjas da metalúrgica pesada do País Basco. A questão técnica é a luta da idade do ferro, de homens a cozinhar o minério da terra. Por isso, somos lançados numa viagem no tempo.

Mesmo com todas as possibilidades tecnológicas de maquinação de aços maciços, as peças de Chillida, respiram pela manualidade do ferreiro e, por isso, vibram como que pelas forças da alquimia. Disciplina que Mircea Eliade apresentava como inseparável da análise técnica da metalúrgica, pois este saber reclamava para a sua transformação as atitudes mágico-religiosas e portanto, era próprio da alquimia, ou dos deuses, dominadores do fogo.

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Exterior Chillida Leku ©Sucesión Chillida y Hauser & Wirth.. Fotografia de Mikel Childa

Neste jardim, como dentro do casario, ver, tocar e ouvir ‘chillidas’ é enganar o tempo e voltar ao espanto dos enigmas, aos segredos dos fundidores. Pois, mesmo que geometrizadas as formas, depuradas na redução precisa, as suas peças não têm que ver com o minimalismo norte-americano. Inscrevem-se num momento pré-industrial. São artesanato. Como repetia Eduardo Chillida: “creio que a virtude está perto do ângulo recto, mas não está nele.”  Talvez seja por isso, ou à raiz de outro fenômeno energético, que nos pareceu que para ver um ‘Chillida’, há que o mergulhar no espaço natural. A cidade não é o melhor pelintro para os seus trabalhos (em betão armado ou em aço). A sua obra publica, espalhada por todos os continentes, é abundante nos contextos urbanos, porém, tanto sobre as ondas do mar (Peine del Viento, San Sebastián, 1977), como no seu bosque de Hernani, parece dar-se a ‘refundação’, o ‘retorno’ ao lugar certo dos seus materiais orgânicos. Alinham-se elementos, dá-se uma conjugação de tensões que parece anular-se. Em Chillida Leku – que significa o lugar de Chillida – as obras voltam à casa-mãe. Pode ser neste sentido que se tenha atribuído o nome ao museu.

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Peine del viento, cortesía Chillida Leku ©Sucesión de Eduardo Chillida.

Muitos críticos falam de ‘santuário pré-histórico’ dedicado a forças que desconhecemos. Realmente, há uma dimensão sacra neste lugar. Como se fosse um louvor, ou homenagem, às possibilidades da alteração da matéria, mais radicalmente difícil de dobrar. Aços e granitos, apresentam-se neste jardim de modo colossal.

A monumentalidade e o peso podem fazer-nos perder no fascínio gratuito, dando lugar à admiração da técnica, deixando-nos ‘cegos’, impressionados pelas toneladas de aço que são insurgidas contra a gravidade. No entanto, a realidade simbólica dos trabalhos, os seus títulos, sugerem rotas, que são de vitalidade dos elementos mais simples da natureza. E despoletam a voz interior do visitante a um diálogo de corpo inteiro. O corpo, presentifica-se, encontra a matéria inerte. E, dando golpes com os nós dos dedos sobre as peças, sacando delas os sons, sibilantes, todo o corpo é convocado. São esculturas afinadas, irracionalistas. Esculturas como pastores, de flauta na boca, sentados enraizados entre árvores e animais. São diapasão, que necessitam da activação, de golpe.

Chillida afirmava ter levado muito a sério a sua vocação primeira de guarda-redes. Que terá impresso carácter. Apreendeu aí a importância do ‘irmão gémeo’ do espaço: o tempo. Debaixo de uma baliza, o jogo reclamava a ocupação dos vazios. A consciência de quando o corpo é necessário para a obstrução da bola e de quanto espaço ficava vazio. Simultaneamente, para o guarda-redes do Real Sociedade, o tempo era a medida rigorosa, era o momento certo que se eterniza quando bem ocupado. Como um golo defendido. O tempo e o espaço da tridimensionalidade de Chillida são uma vitória. As suas peças, por isso, parece que ficaram aí até que termine o mundo. Contudo, com uma” presença que é geradora de realidades na sua corporização”, como se pode ler em El arte y el espacio (1969), publicação fruto do encontro do escultor com Martin Heidegger, onde se trabalha exactamente acerca da natureza do lugar que se abre, nos limites do vazio, ou nos contornos dos cheios da matéria plástica.

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Consejo al espacio IV, 1987, acero corten ©Zabalaga Leku. San Sebastián, VEGAP, 2019. Sucesión Chillida y Hauser & Wirth. Fotografia de Iñigo Santiago

Depois de um encerramento de mais de sete anos, por falta de fundos, a família Chillida vê o sonho dos seus pais aberto novamente ao público. Com o apoio do paisagista holandês Piet Oudolf, foram renovados os Jardins onde se encontram as esculturas. A nova curadora é Mireia Massagué, que deixa a Gaudí Exhibition Center para abraçar este projecto. Contudo, todo o museu é suportado financeiramente pelos galeristas de Zurique Iwan & Manuela Wirth,casal que hoje conta com onze galerias de grandes dimensões nas cidades mais importantes do mundo da arte. A família Chillida não explicou os pormenores do contrato, porém, este casal será responsável por posicionar o trabalho do Chillida no lugar que, segundo os galeristas, merece ter. Esta família sueca, será a partir de hoje a representante do artista e, dado o valor de Chillida Leku, pareceu-lhes de uma importância primária a recuperação e abertura ao publico do mesmo espaço, convertendo-o num lugar incontornável da escultura contemporânea.

 

 

“yo soy de los que piensan, y para mí es muy importante, que los hombres somos de algún sitio. Eso de creernos que no somos de ningún sitio, que lo moderno es ser de Nueva York o París, porque vives allí, no. Los hombres somos de un lugar. Ahora bien, lo ideal es que seamos de un lugar, que tengamos raíces en un lugar, pero que nuestros brazos lleguen a todo el mundo, que nos valgan las ideas de cualquier cultura. Pero que los hombres somos de un lugar es evidente, los hombres y todos los demás animales somos de un lugar concreto, ni mejores, ni peores. Todos los lugares son perfectos para el que está adecuado a ellos, y yo aquí en mi País Vasco, me siento en mi sitio, como un árbol que está adecuado a su territorio, en su terreno, pero con los brazos abiertos a todo el mundo. Yo estoy tratado de hacer la obra de un hombre, la mía porque yo soy yo de aquí esa obra tendrá algunos tintes particulares, una luz negra que es la nuestra.” (Escritos, p.86)

 

Foto de destaque: Arco de la libertad (acero corten, 1993). ©Zabalaga Leku. San Sebastián, VEGAP, 2019. Sucesión de Eduardo Chillida y Hauser & Wirth. Foto Mikel Chillida


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Exposição Chillida-Leku ©Zabalaga Leku. San Sebastián, VEGAP, 2019. Sucesión Chillida y Hauser & Wirth. Fotografia de IGonzalo Machado

Informações úteis:
Museu Chillida Leku –  Hernani, Gipuzkoa, Espanha
Todas as informações sobre preços e horários: aqui
Telefone: 00 34 943 33 59 63
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* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta seção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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