Uma História da Bíblia: um guia de excelência

Desta vez a Brotéria sugere "Uma História da Bíblia. O Livro e as suas fés" de John Barton. Uma boa ajuda para compreender esta fonte do pensamento e da cultura ocidental que continua a irrigar o que vivemos, fazemos e dizemos.

Desta vez a Brotéria sugere "Uma História da Bíblia. O Livro e as suas fés" de John Barton. Uma boa ajuda para compreender esta fonte do pensamento e da cultura ocidental que continua a irrigar o que vivemos, fazemos e dizemos.

Escrever sobre a Bíblia nunca foi tão difícil e tão necessário. No contexto pós-cristão das nossas sociedades, este “livro de livros” tornou-se um ilustre desconhecido: pouco ou quase nada lido ou escutado, é ainda objeto de generalizações e vítima da seletividade da citação. Na qualidade de fonte do pensamento e da cultura ocidental, continua, contudo, a irrigar, ainda que de forma subterrânea, muito do que vivemos, fazemos e dizemos. John Barton, antigo professor de Bíblia na Universidade de Oxford, está perfeitamente consciente disto e oferece, em Uma História da Bíblia, um guia de excelência a todos aqueles que desejam, crentes ou não-crentes, descobrir a longa história de redação, transmissão e interpretação do texto bíblico.

O livro [a Bíblia] é, ao mesmo tempo, mais e menos que os conteúdos doutrinais das religiões (Judaísmo e Cristianismo) que dele nasceram.

Com uma linguagem e estilo acessíveis, o autor esforça-se por expor de forma imparcial o que são hoje os debates e as certezas acerca da composição dos distintos livros do Antigo e do Novo Testamento (partes I e II), oferecendo antídoto contra um certo fundamentalismo anistórico na leitura da literatura sagrada. Os capítulos dedicados à questão do texto das Escrituras tanto no Judaísmo como no Cristianismo (parte III) mostram, por seu lado, que as teorias da conspiração de tipo Dan Brown acerca do cânone bíblico são puras fantasias: a antiguidade e a organicidade do processo de seleção de um corpus são inegáveis. A quarta e última parte é dedicada à história da interpretação da Bíblia no seio do Judaísmo e do Cristianismo da Antiguidade até hoje, com um interessante capítulo final (18) sobre as traduções do texto. A conclusão retoma a reflexão que o autor anunciara já na introdução sobre a relação entre a Bíblia e a fé: o livro é, ao mesmo tempo, mais e menos que os conteúdos doutrinais das religiões (Judaísmo e Cristianismo) que dele nasceram. Mais, porque oferece uma diversidade que as tradições tantas vezes se esforçam por minimizar ou suprimir; menos, porque tanto o Judaísmo como o Cristianismo são religiões vivas, cujos membros nunca renunciaram ao esforço de se apropriar do texto nos seus diferentes “aquis e agoras”.

Se o livro de Barton merece todos os elogios que se lhe possam fazer, a tradução portuguesa é, neste caso, mais obstáculo que ajuda. O literalismo torna a leitura difícil e pouco agradável. E também não faltam erros. Alguns, como traduzir “deuteronomistic” por “deuteronómico/a” (em vez de “deuteronomista”) ou “form criticism” por “criticismo formal” (em vez de “crítica das formas”), são eventualmente desculpáveis, dado o carácter técnico das expressões. Outros, como traduzir “Church Fathers” por “Pais da Igreja” (em vez de “Padres da Igreja”), são mais difíceis de compreender e evidenciam que uma revisão cuidadosa da tradução teria, e muito!, beneficiado o produto final.

 

Uma História da Bíblia. O Livro e as suas fés – John Barton I 616 páginas
Temas e Debates
24,40 € – Comprar aqui

 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta seção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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