Podcast ‘Raúl vai ao Teatro’ estreia na Brotéria

O podcast “Raul vai ao Teatro” teve a sua edição zero. Será feito mensalmente, a propósito de uma estreia de uma peça de teatro, com Jacinto Lucas Pires e Marcos Barbosa, acompanhados de um convidado. Uma nova proposta da Brotéria.

O podcast “Raul vai ao Teatro” teve a sua edição zero. Será feito mensalmente, a propósito de uma estreia de uma peça de teatro, com Jacinto Lucas Pires e Marcos Barbosa, acompanhados de um convidado. Uma nova proposta da Brotéria.

A primeira vez que estive envolvido numa produção teatral, foi numa peça de uma companhia inglesa da qual eu era aprendiz, e que estreava no Festival de Edimburgo. Era um espetáculo de Teatro-Dança, ensaiado meses a fio numa casa em ruínas, perto de Brixton. No dia do ensaio geral, soubemos que na estreia estaria presente um crítico do The Scotsman, o que provocou enorme ansiedade numa equipa muito inexperiente e que apostava quase todos os seus recursos nesta produção. O meu papel era simples: tinha apenas de carregar no botão do “play” de um leitor de cassetes, assim que as luzes de público se apagassem.  Esta era “a deixa” de início de espetáculo, que indicava aos atores o momento de entrada em cena. Depois, toda a peça funcionava montada a partir das entradas de som da cassete, cuidadosamente editadas para a duração do espetáculo. No dia da estreia, a sala estava cheia e na primeira fila sentado o famoso crítico. Eu estava preparadíssimo, na cabine técnica, ao lado dos técnicos do festival, com o meu dedo indicador a postos. Em duas semanas de intensos ensaios, nunca o meu dedo indicador tinha falhado, pressionando adequadamente aquele botão mágico, no tempo certo. Abriam-se alternativas promissoras ao meu futuro nas Artes Cénicas, com estes talentos inesperados, mais técnicos, que artísticos. Apagaram-se as luzes, respirei fundo, um tempo de suspensão, e “play”, dedo indicador a pressionar o botão. Nada. Nada de “play”. Dedo indicador estragado? Desliguei o leitor de cassetes, voltei a ligar. Tirei a cassete, voltei a meter. “Play.” Desliguei mais uma vez. Nada. Dedo indicador, nada. Dedo indicador do técnico do festival, nada. Ao menos não é o meu dedo que está estragado. Carrego. “Play”. “Play.” Nada. Carrego. Nada. Rezo. Nada. Sobem de novo as luzes de público, e é lançada uma mensagem a pedir ao público para sair da sala devido a “problemas técnicos.” O olhar fulminante do diretor da companhia diz claramente “problema do técnico.” O crítico escocês passa por mim enfadado ou divertido, não deu para perceber. Talvez as duas coisas. Fecham as portas, gritos e nervosismo. Os técnicos do festival, com a tranquilidade de quem já viu de tudo, em anos e anos de festival, trocam o leitor por um novo, e sim, “play”. Sem hesitações, a música entra. Recomeçamos.  Público na sala, crítico de novo na primeira fila. E o espetáculo acontece, exatamente como foi ensaiado.

Dias mais tarde, aparece a crítica no jornal escocês. Demolidora. As circunstâncias técnicas e o nervosismo da estreia não serviram de atenuantes, e o senhor crítico arrasa toda a construção e interpretação do espetáculo, duvidando até da pertinência do teatro que não é dança e da dança que não é teatro.

Evidentemente que esta peça na Escócia tinha fragilidades, mas o texto que saiu no jornal, era um espetáculo por si só, um artigo jornalístico mais empenhado na construção da “personalidade do crítico” do que uma vontade generosa da partilha da experiência vivida no teatro.

As consequências para a carreira do espetáculo foram evidentes, e a própria companhia nunca recuperou desta dispendiosa aventura escocesa. A relação do meu inocente indicador direito com a arte performativa, foi-se adaptando a novas funções, menos pressionantes, mais indicativas, mas este episódio ficou-me sempre na cabeça, como uma reflexão sobre o papel do crítico, e a forma como a perceção de uma pessoa e as suas intenções, podem definir a vida e o impacto de um espetáculo. Evidentemente que esta peça na Escócia tinha fragilidades, mas o texto que saiu no jornal, era um espetáculo por si só, um artigo jornalístico mais empenhado na construção da “personalidade do crítico” do que uma vontade generosa da partilha da experiência vivida no teatro. O próprio crítico a cair na armadilha do facilitismo, cedendo perante um texto mais mediático, às custas de uma peça cujo principal defeito seria a ingenuidade.

Conto isto a propósito de uma outra estreia,o podcast “Raul vai ao Teatro, que teve a sua edição zero. Será feito mensalmente, a propósito de uma estreia de uma peça de teatro, com o Jacinto Lucas Pires e comigo, acompanhados de um convidado.

Não será um podcast de crítica teatral, mas a causa da sua existência começa aí, na reflexão sobre o quase desaparecimento da crítica dos meios de comunicação, e na necessidade de encontrar espaços públicos de discussão e partilha sobre os objetos artísticos. Temos necessidade da presença da crítica, como fator de relacionamento com a comunidade onde realizamos espetáculos, e também como modo de reflexão para os artistas, programadores e mediadores, do resultado específico desse trabalho.

O facto de sermos os dois artistas do meio, obriga a um cuidado na abordagem que fazemos aos espetáculos, e a uma especial atenção ao modo como o podemos ligar com a vida à nossa volta e com os acontecimentos que nos implicam a todos como sociedade.

Fizemos uma versão beta, ou podcast zero, a propósito de uma peça encenada por António Pires, no Teatro do Bairro: As Cadeiras de Eugène Ionesco. A nossa convidada foi a atriz e encenadora, Catarina Requeijo, e estivemos à conversa, misturando o nosso entusiasmo com as interpretações de Carmen Santos e Luis Lima Barreto, com as nossas histórias comuns no Teatro.

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Fotografia: © Miguel Bartolomeu - As cadeiras

Esta peça foi escrita em 1952, e apresenta-nos um casal de idosos que aguarda a chegada dos convidados, para ouvir uma palestra grandiosa e redentora, que ficará para a posteridade. É uma peça de referência do teatro do absurdo, estilo que marcou os anos logo após o final da segunda guerra mundial, e que usa as diversas formas da comédia, desde a tragicomédia até à farsa para refletir sobre um mundo caótico e em crise civilizacional.

Faremos mais podcasts, sempre com esta intenção de recuperar e partilhar essa alegria, juntando-nos a uma terceira pessoa, para um convite assumido a uma experiência mensal da vida teatral da nossa cidade.

Nesta versão, que é feita com uma simplicidade que se agradece, os dois atores têm uma cumplicidade que é, por vezes, comovente. Numa peça de teatro do absurdo, que historicamente surge como resposta ao naturalismo, usando técnicas do surrealismo e da não-representação, é curioso constatar como esta encenação de António Pires ganha dimensão humana, através da naturalidade da interpretação.  Catarina Requeijo refere-se no podcast a isso, a uma disponibilidade para o jogo teatral muito dessa geração de atores. Sobre esse jogo, António Pires constrói uma encenação de pormenor, dirigindo olhares e gestos, que nos ajudam a imaginar todo um conjunto de personagens que estão lá, mas que não são interpretadas por nenhum ator. É isto que agradecemos como público, a relação clara entre dois atores, que contam histórias um ao outro, sentados num salão de uma casa velha, numa ilha solitária, e já não interessa se estamos a ver teatro do absurdo, ou se isto será uma peça fantástica – no sentido de que se afasta da realidade. O que importa é que vemos duas pessoas, frágeis, humanas, a lidar com as palavras e a tentar combater uma solidão terrível, ou a presença da morte. E essa visão, faz-nos sair da sala de espetáculo, com uma confusão de emoções, mas com uma alegria que aparece um pouco depois, e que vem deste enorme prazer de ver teatro.

Recordando Edimburgo, e a história do crítico, faremos mais podcasts, sempre com esta intenção de recuperar e partilhar essa alegria, juntando-nos a uma terceira pessoa, para um convite assumido a uma experiência mensal da vida teatral da nossa cidade.

O podcast “Raúl vai ao teatro” pode ser ouvido aqui.

Foto em destaque: © Miguel Bartolomeu – As cadeiras

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta seção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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