O Livro da Consolação

O percurso que nestas páginas de Mário Rui de Oliveira se descobre não tem reservas, isto é, diz respeito à vida de cada um. Desde logo, passivamente, podemos deixar-nos inspirar pela procura de outros

O percurso que nestas páginas de Mário Rui de Oliveira se descobre não tem reservas, isto é, diz respeito à vida de cada um. Desde logo, passivamente, podemos deixar-nos inspirar pela procura de outros

Como o feto procura a luz à saída do ventre materno, também o poema vai procurando no interior do poeta, ao longo de meses (talvez anos),
expressão e altura. No caso de Mário Rui de Oliveira, poeta e padre português, eclodiu uma terceira poesia ao fim de alguns anos de silêncio.
Depois de O Vento da Noite (2002) e Bairro Judaico (2003), escreve agora O Livro da Consolação.

Se a capa (litografia dum céu estrelado) e o nome do livro nos podem remeter imediatamente para um percurso sereno e gozoso, vamos percebendo ao longo da leitura que a “consolação” aparece no livro, sobretudo como elemento cobiçado pelo autor. Mais do que revelar ou partilhar algo que possui, o poeta parece dispor-se a percorrer (com o leitor) uma busca existencial de sentido e de léxico para a díficil experiência da ausência de consolação (na dor, no luto, no abandono). Esse percurso,  breve e concentrado, faz-se a dois andamentos, em duas partes: “O Livro da Consolação” e “O barco dos mortos”.

Num estilo bastante cru e directo, irónico, com muitas referências culturais, a poesia de Mário Rui de Oliveira apresenta-se exigente e meditativa. Contudo, não faltam linhas de grande sensibilidade (e.g.: “Collecta” ou “Voyager 1977”) ou imagens poderosas, daquelas que criam e ampliam significados. Sabendo que as inscrições escolhidas para os inícios de livros ou de capítulos podem ser lidas como “avisos à navegação”, convém considerar a frase que antecede a primeira parte: “As coisas que não existem são mais bonitas” (Manoel de Barros). Como poderá a inexistência conter beleza? Inexistência para o poeta é sobretudo a sensação do sujeito. Assim, talvez se refira à consolação que parece não existir; Talvez aluda aos desaparecimentos de pessoas queridas; Talvez fale das realidade invisíveis, espirituais; Talvez nem o poeta saiba… ou talvez possa ser um pouco de tudo isto. Porém, ouve-se ao longo de toda a primeira parte como um grito – uma das mais autênticas formas de oração – que reclama consolação (e.g.: “Epiclese”, “Ad invitatorium”, “A última luz”, “Os dias vêm antes ou depois das noites”, “Prece… ao Deus do silêncio”).

Uma outra “pista” importante é o poema escolhido para a contracapa: “Do Livro dos Provérbios”. Um belo poema que nos remete imediatamente para o imaginário bíblico e portanto para a relação do crente com o Absoluto: “três coisas não deves esquecer: / o caminho das águias no céu / o rasto dos répteis nos rochedos / a distância entre mim e ti”. Curiosamente, apesar da ideia da verticalidade e da distância que separa a águia do réptil, a força das imagens propostas reside na sua invisibilidade. Quem é que repara no caminho percorrido pela águia enquanto plana nos céus? Quem consegue apreender a rota veloz do réptil nos rochedos? Quem conseguirá medir a distância entre si e Deus? Eis a tensão que perpassa toda esta procura poética. Sei que és águia e eu sou réptil. Mais não sei.

Ainda na primeira parte, salienta-se o tríptico: “Da vida dos homens voadores” que tem tanto de irónico, como de profundo. Entre a loucura e o desejo de céu, três homens de diferentes épocas experimentam voar. No primeiro, “grande foi a aflição”. O segundo “nunca mais foi visto”. Para o terceiro, “a partir desse momento nunca mais cessaram os seus voos”. O último destes é São José de Cupertino, frade franciscano que em seus extâses místicos parece que levitava publicamente. Possivelmente, esconde-se neste poema a promessa de que, com Deus, o voo é de facto possível.

Na segunda parte do livro, é uma citação de Rilke que dá o mote ao “barco dos mortos”: “Senhor, a cada um dá tu a própria morte, …”. A dureza e a nudez provocadas pela morte acompanham a viagem deste barco, que é também o barco das influências históricas que viajam com o autor. Homero, Orácio, Constantin Brancusi, Giorgio Morandi, Cristina Campo, John Cage, Francesca Woodman, cada um busca a seu modo “o poema … que pode ser fatal” (“Ars poetica II”). Mário Rui, serve-se desta paisagem cultural densa, para reflectir acerca da poesia e da beleza, da ausência e da amizade, do esquecimento, da morte e do amor.

Do inteiro barco, convém ressaltar o já referido “Ars poetica II”, porque nos pode ajudar a ler o estilo do autor. O poema “Where have all the flowers gone”, pela força mendicante daquele que pede afecto. “As mulheres de Tróia”, por nos trazer o caos interior, com a força de ricas imagens homéricas e bíblicas. Ainda o extraordinário poema “The Brancusi’s golden bird”, pela simplicidade e exactidão descritivas: “aquele pássaro / a forma absoluta do espírito”. De facto, quem conhece a peça do escultor romeno pode concordar que Brancusi conseguiu fixar no tempo, uma porção significativa da beleza imaterial e eterna. Por isso continua o poeta, numa espécie de nunc dimittis (oração de Simeão diante de Jesus): “pode-se agora morrer / debaixo desta alegria”. Aqui entrevemos alguma consolação, a que vem da contemplação estética e eleva ao divino.  Por fim, um provocador e irónico poema: “Tentativa de caminhar sobre as águas”, acerca da tirania de Hitler.

Seguramente, o percurso que nestas páginas se descobre, não tem reservas, isto é, diz respeito à vida de cada um. Desde logo, passivamente, podemos deixar-nos inspirar pela procura de outros. Mas, mais ainda, quem poderá viver sem escrever, entre silêncios perturbadores e ruídos confusos, o seu próprio livro da consolação?

O Livro da Consolação

OLIVEIRA, Mário Rui de,
O Livro da Consolação
(9,90€) 63 págs., Assírio & Alvim, Março 2019
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* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta seção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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