Ir ao teatro: Golpada

Ao longo da peça vamos sendo surpreendidos por todas as personagens de "Golpada" que está em cena até dia 28 de julho, no Teatro Aberto, em Lisboa. A Brotéria sugere-lhe esta peça.

Ao longo da peça vamos sendo surpreendidos por todas as personagens de "Golpada" que está em cena até dia 28 de julho, no Teatro Aberto, em Lisboa. A Brotéria sugere-lhe esta peça.

É até ao dia 28 de Julho que pode assistir à Golpada, peça da autoria da alemã Dea Loher, com encenação de João Lourenço, no Teatro Aberto em Lisboa. Conta a história de dois jovens irmãos gémeos, Maria (Ana Guiomar) e Jesus Maria (Carlos Malvarez) que organizam um assalto a uma ourivesaria.

A peça inicia-se com um prólogo em que os irmãos proferem as seguintes palavras: “Só mais uma noite. Temos de esperar mais uma noite. Só mais esta noite.” – Jesus Maria e “Sim, mais uma noite. Vá vem. Vem, noite vem. Passa depressa” – Maria. Rapidamente nos apercebemos que estamos num hotel em Antuérpia, onde os gémeos se encontram há já 8 dias. A explicação da razão pela qual se encontram ali com aquela ansiedade nessa noite será o objectivo e o principal tema desta peça.

O que se passa em seguida é uma narração em retrospectiva contada pelo gémeos e os seus vizinhos, a vidente Madame Bonafide (Cristovão Campos) e o realizador de filmes pornográficos Otto-Porno (Tomás Alves), bem como o joalheiro Senhor Milagre (Rui Melo). Ao longo da história vai-se desvendando o mistério que surge no prólogo.

Começamos por conhecer a história de Maria e Jesus Maria, que tendo crescido num meio desfavorecido, aspiram à riqueza não como estatuto mas sim como uma maneira de se libertarem daquilo que os atormenta e de voltarem a ganharem gosto pela vida. Jesus Maria, tendo desde sempre prometido a Maria que iriam ter uma vida fantástica, é agora confrontado pela irmã com o cumprimento dessa promessa. Já que os irmãos sentem faltam de aventuras, é necessária uma ação imediata para não deixar que a normalidade das suas vidas se arraste mais.

Gastar tudo. Sempre agora. Quando precisamos de uma coisa, gastamos. Temos o dinheiro sempre ali à mão” É aqui que percebemos que essa riqueza não é desejada para pagar dividas ou para poupar, mas sim para viver o presente imediato sem pensar num depois. O prazer momentâneo de conduzir um Porsche a alta velocidade é tudo o que interessa naquele momento. Comer um gelado enfeitado com uma folha de ouro é o símbolo máximo da liberdade que iriam alcançar, sem ter de pensar em descascar batatas numa cozinha para pagar as contas.

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© Teatro Aberto

Através desta procura de liberdade dos gémeos pela conquista de riqueza, Golpada lança um olhar sobre a irreverência juvenil e a sua procura de um sentido para a vida e sobre aquilo que os jovens, neste caso de um meio social desfavorecido, fazem depender a sua felicidade. O desejo de evasão é muito recorrente nesta peça, estando repleta de subtis metáforas e enigmas que são deixados para o espectador desvendar.

Um dos expoentes máximos desta simbologia de evasão é a Madame Bonafide e o seu aquário. O aquário e os seus peixes surgem como uma imagem da sociedade em que cada peixe pode escolher o seu caminho, deixando-se ir em cardume ou seguindo o seu próprio. Independentemente da opção, acabará sempre a esbarrar com a parede de vidro. Diz a vidente que ainda assim “vale sempre a pena tentar” e que mesmo sendo difícil é possível. Ela é o exemplo disso. Era cabeleireira e tornou-se vidente. É meio mulher e meio homem. O enigma à volta desta personagem impele-nos a pensar sobre os nosso próprios caminhos e escolhas. À semelhança do desejo de mudança dos gémeos, seremos nós próprios também capazes de criar essa mudança e atravessar as paredes de vidro dos nossos aquários?

O Teatro Aberto tem sido, sem dúvida nenhuma, vanguardista no desenvolvimento cenográfico e apresenta-se aqui com a mais vibrante apresentação a esse nível a que assistimos nos últimos tempos.

Ao longo da peça vamos sendo surpreendidos por todas as personagens, culminando com a revelação final do Senhor Milagre que, sem querer revelar o desfecho do enredo, é também imagem do desejo de mudança de que falamos.

A morte vai sendo também um tema importante nesta peça. É através da morte da mãe e de algumas outras personagens que vamos percebendo o seu impacto no desenvolvimento da história, mas também no crescente gosto pela vida e no optimismo dos gémeos, que vai servindo de fio condutor a toda a narrativa.

Avançamos já que, na nossa opinião, o espectáculo vale principalmente pelo trabalho musical e de cenografia. O Teatro Aberto tem sido, sem dúvida nenhuma, vanguardista no desenvolvimento cenográfico e apresenta-se aqui com a mais vibrante apresentação a esse nível a que assistimos nos últimos tempos. Se “A Mentira”, apresentada até abril deste ano, era surpreendente, esta peça traz ainda mais novidades. O palco é totalmente nivelado como se estivéssemos numa montanha, de buracos no chão surgem trampolins, há casas que aparecem vindas do nada, joalharias com cores gritantes. Mas a novidade não se fica pelo trabalho cenográfico. A valorizar este dinamismo música ao vivo, com direção musical de Renato Júnior e executada por Giovanni Barbierie no piano e Mariana Rosa nas várias guitarras, que também vão desempenhando breves papéis em palco. Por sua vez vão sendo acompanhados pelos actores que se vão juntam tocando alguns instrumentos. Para esses actores o seu “fora de cena” passa a ser o espaço da orquestra. E isso proporciona momentos maravilhosos durante a peça. Um trabalho musical despretensioso que ao mesmo tempo potencializa várias cenas.

No final, o desfecho fica por resolver, deixando-se para o espectador essa tarefa. O que fica é o desejo de viver. O cenário representa também um parque infantil alusivo à infância dos gémeos. E quando tudo acaba, um baloiço pendurado no tecto oscila no ar, remetendo-nos para o poder dos sonhos de infância e tudo o que ficará por contar.

Foto capa:© Teatro Aberto

FICHA ARTÍSTICA:
Versão: João Lourenço, Vera San Payo de Lemos
Dramaturgia: Vera San Payo de Lemos
Encenação e cenários: João Lourenço
Direcção Musical: Renato Júnior
Figurinos: Ana Paula Rocha
Vídeo: Nuno Neves
Com: Ana Guiomar, Carlos Malvarez, Cristóvão Campos, Rui Melo e Tomás Alves
Músicos: Giordanno Barbieri Mariana Rosa

Informações úteis:

Local: Teatro Aberto – Novo Grupo de Teatro C.R.L. – Praça de Espanha,1050-107 Lisboa (mapa google)
Sala Vermelha;  Quarta a Sábado às 21h30 I Domingo às 16h00
Contactos: bilheteira@teatroaberto.com | Telefone: 213 880 089 I Página web
Preços: 17€, 13,60€, 8,5€

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta seção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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