aosvossoslugares.com: vida nova, a cada dia

Fechar portas nunca é bom. Parece que nos oferece o bloqueio, o fim, o vazio… É tão bonito quanto exigente e absolutamente necessário contrariar este movimento. Assumindo este espírito a Brotéria lançou a iniciativa "Aos vossos lugares".

Fechar portas nunca é bom. Parece que nos oferece o bloqueio, o fim, o vazio… É tão bonito quanto exigente e absolutamente necessário contrariar este movimento. Assumindo este espírito a Brotéria lançou a iniciativa "Aos vossos lugares".

A Brotéria é um laboratório vivo e borbulhante do melhor que nos foi confiado: vida nova a cada dia. Neste tempo tão estranho, quis ir mais longe e com cada um de nós. Aos Vossos Lugares ensina-nos a abrir portas e escancarar janelas em tempo de clausura.

Aos Vossos Lugares nasce da inquietação provocada pelas consequências de uma epidemia que crescia vorazmente. Fechar portas, em especial das melhores casas — as que reúnem muita e boa gente, era o mais certo a fazer. Mas é um «murro no estômago» para quem faz disto vida: cuidar a Casa.
Fechar portas nunca é bom. Parece que nos oferece o bloqueio, o fim, o vazio… É tão bonito quanto exigente e absolutamente necessário contrariar este movimento. Neste momento a realidade pode tender a fechar-nos, mas sabemos que a Vida tende sempre a abrir-nos. Esta é a grande questão e desafio deste tempo: a verdadeira conversão.

Contrariar a prisão não é ignorar a incerteza, nem o sofrimento, nem o medo. Mas acolher e aprender a viver bem cada tempo. Pode passar por deixar a alegria dançar com a tristeza e claramente passa por deixarmos a beleza falar no meio da confusão.

Distanciando-se da discussão médica — não só porque confiam essa missão a quem compete, como também se ocupam e se concentram na sua própria missão — os jesuítas, e aqueles que fazem da Brotéria a sua casa, sonharam uma programação com artistas de várias áreas e de todos os tempos. Quis o vento que estas sementes germinassem.

Poucos dias depois de ter sido declarada a pandemia, surge o primeiro rasgo. Chamemos-lhes rasgos, às coisas simples, genuínas e bonitas que aos nossos lugares pudemos — e podemos — contemplar. Uma pequena história, um excerto, uma série de imagens, um poema, pequenos vídeos, pequenos registos de áudio… Um rasgo sempre pequeno em tamanho e avassaladoramente grande em corpo.
Aos Vossos Lugares deixou-nos um arquivo online de dezassete rasgos: várias artes e ofícios, um por dia durante dezassete dias, sempre iluminados às 21h30 (GMT). É um projeto caseiro que não se deixou domesticar. Aqui celebra-se a vida com liberdade: a humanidade e a arte, a fragilidade e a criatividade. A paz e a esperança chegam, ora com silêncio ora com espanto.

 

É um projeto caseiro que não se deixou domesticar. Aqui celebra-se a vida com liberdade: a humanidade e a arte, a fragilidade e a criatividade. A paz e a esperança chegam, ora com silêncio ora com espanto.

 

É injusto, mas não posso deixar de destacar a belíssima história com Ghirri pela Matilde ou a beleza de ouvir Toscano ousar, a solo, uma música dos nossos corações, My Favorite Things de Coltrane. Também gostei particularmente de ouvir Novalis na voz de Rui Chafes e de saber que mediram a acústica do hall da entrada da Brotéria para deixar o Rapaz Ego ecoar, a partir de sua casa. De descobrir uma locomotiva que demorou três meses a ser traduzida ou que o tom de preto de Anish Kapoor foi ultrapassado… tantas coisas tão boas e há tanto ainda por conhecer. Sublinho ainda a forma inesperada e despretensiosa como os artistas generosamente se lançaram ao desafio.

De facto, é demasiado injusto não referir que é possível um generoso e fulminante encontro a partir de Matilde Campilho, Joana Gama, Domenico Lancellotti, Afonso Reis Cabral, Ricardo Toscano, Bernardo Pinto de Almeida, Rapaz Ego, Vera Marmelo, Marcos Barbosa, Jacinto Lucas Pires, Luísa Jacinto, GPU Panic, Rui Chafes, Capitão Fausto, Madalena Matoso (Planeta Tangerina), Lourenço Ferreira, Qual Albatroz e do cardeal José Tolentino Mendonça. Encontro esse com o que nos falta, muito provavelmente sem sabermos, a partir de uma atenção específica e dirigida. Um grande poeta dizia que «depois de uma tarde a tratar do jardim / a nossa vida / importa menos».

Estes rasgos reiteram-nos a nossa origem, a criatividade a que todos somos chamados e cuidam os cantos mais recônditos da nossa alma. Convidam-nos a estar de «olhos fechados e coração aberto ao reencontro com o exterior que nos falta», a respirar fundo, a cuidar até a imaginação.
Aos Vossos Lugares não serve o propósito de nos entreter, mas de nos cuidar e de nos fazer cuidar. Não conheço outro lugar que cultive a arte, nova, e simultaneamente os artistas e os espectadores neste tempo, que é tão estranho quanto pode ser lavrado. Sem saberem estes artistas desbravam-nos caminho para, aos nossos lugares, irmos descobrindo o nosso lugar.

Resta-nos pedir mais paciência e sabedoria para saber viver bem o prolongamento do estado de emergência. E sobretudo agradecer estes rasgos… e os próximos! Recomeçaram os arroubos diários, sempre às 21h30 (GMT) e permanecerão, pelo menos, até ao dia 23 de abril.

Ilustração de Mané A. Peixoto

 

«No Meu Lugar» é um trabalho de desconstrução e mistura de conteúdos, seguindo a linha de trabalho e forma de olhar o mundo que a Rita Rebelo de Andrade tem vindo a construir e descobrir. Uma série de elementos separados que agregados e trabalhados em conjunto criam corpo, identidade e caminho. Montagem, edição, som e outras filmagens: © Rita Rebelo de Andrade — rita-ra.com

Primeira edição
Segunda edição – todos os dias às 21h30 até 23 de abril

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta seção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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