Agustina Bessa Luís: Um «caso» na literatura portuguesa

Já em 1980 o P. João Maia, jesuíta e crítico literário, destacava a grandeza de Agustina. O Ponto SJ recupera um artigo publicado em 1980 na Brotéria como forma de homenagear a escritora portuguesa.

Já em 1980 o P. João Maia, jesuíta e crítico literário, destacava a grandeza de Agustina. O Ponto SJ recupera um artigo publicado em 1980 na Brotéria como forma de homenagear a escritora portuguesa.

Em 1980 assinalaram-se 30 anos da vida literária de Agustina. Na Faculdade de Filosofia de Braga o P. João Maia, crítico literário, fez uma conferência em que destacava o génio da autora e em que recordou o que dela dizia José Régio. Um texto que partilhamos parcialmente com os nossos leitores. No final, pode aceder ao texto completo através de uma ligação.

 

 

«Diz-se, apesar de tudo, que dotou a Brusca de grandes melhoramentos, e que talvez a trans- plante um dia, pedra por pedra, para sítio mais grandioso, a Suíça ou Braga, por exemplo. Mas diz-se muita coisa e há sempre quem exagere.» 

«Não digo que sim, não digo que não: talvez as coisas mudaram.» .

(A Brusca)

Tudo tem o seu tempo e o seu sítio, diria o grande sábio M. de La Palisse, e eu creio que a escolha da escritora Agustina Bessa Luís para objecto de consideração e de estudo por parte dos moços estudiosos de Braga, neste ano e calendas, e nesta sala bem forrada de bezerro e carneira estofada de sabedoria e de latins tem o seu quê de acerto e também de ousadia. Com efeito trata-se de uma escritora desmandada de carreiros e de programas e em cuja obra arfa, não digo um esforço, mas, sim, uma rajada de filosofia espontânea, em estado de criatividade que borbota em catarata nas quebradas de um estilo deflagrado que é tudo quanto há de mais estreme e raro na Literatura portuguesa. E ninguém se admire de que uma romancista bata a tecla filosófica! Não só os existencialistas nos habituaram à estranha fusão dos géneros literários. A Introdução à filosofia de Jaspers, manípulo de conferências feitas na Rádio alemã começa por nos alertar para a filosofia que as crianças, no seu descobrimento do mundo e ida vida, vão projectando; e o filósofo alemão diz-nos que está por fazer o levantamento das instâncias filosóficas a que a infância tem acesso. Lembro ainda, se numa casa como esta não é ousadia, que Ortega y Gasset inspirado filósofo e estilista dos máximos, dizia que boa introdução à filosofia seria a que não guindasse o assunto a dificuldade aterradora, mas o versasse de maneira que o não turvasse com assorpadas importâncias. A filosofia era para ele uma coisa simples impreterível, inadiável, encontradiça tão fácil como ler um livro, olhar para o sol, ouvir uma canção. E os humanistas desta casa estão: lembrados das palavras do velho Sócrates no dia postremo da sua longa vida de filósofo. Como alguém lhe estranhasse que ele tivesse composto uns versos, explicou ele o caso deste modo: — «No curso da minha vida, com frequência fora visitado por um sonho que tomava ora uma forma ora outra e me aconselhava constantemente a mesma coisa: — Ó Sócrates, dizia ele, procura cultivar a música, e dedica-te a isso. Ora eu julgava que aquilo que na vida passada tinha feito, a isso me exortava e incitava o sonho. Semelhante aos que animam os corredores, assim ele, julgava eu, me animava também a prosseguir o que tinha principiado — a dedicar-me à música, pois não existe música, pensava eu, mais excelente que a filosofia à qual eu me dedico». Como vemos, Sócrates pensou durante toda a vida que a filosofia era música e só lhe veio um leve escrúpulo antes de morrer.

(…)

José Régio considerou desde a primeira hora a escritora Bessa Luís «um caso», algo de genial, de irredutível susceptível de trazer à literatura portuguesa algo de novo. Teria ele acertado? Não há hoje ninguém que o não saiba.

A única vez que me aconteceu falar com o poeta José Régio foi no Entroncamento, numa espaçada pausa de comboios durante a qual vestidos de negro ambos comemos meio frango, no restaurante vazio, de moscas estivais sensivelmente zumbidoras. Ainda hoje não sei como viemos à fala; mas o certo é que fui eu quem, numa suspeita que seria ele, me levantei da minha escureza numa vénia. ao grande escritor que. por sinal era pequeno de estatura, concentrado no falar e amável no departir. A alturas tantas, depois de me pôr reservas a um artigo que: eu tinha escrito sobre Mário Beirão, perguntou-me, com olhos a luzir debaixo de negras sobrancelhas: — «Já leu os livros de Bessa Luís? — Fique sabendo que é mais um «caso» na literatura portuguesa!» É sabido que José Régio, no seu sistema crítico de ficção e mormente de poesia, ajuizava pelo deflagrado da criação. Ser escritor original era fado, era algo de fatal a que se não podia fugir e dificilmente se podia aumentar, melhorar, alçapremar. Assim, para ele, António Nobre era um caso, Cesário Verde era um caso, Mário de Sá-Carneiro era um caso, Camões, Antero, etc. E no fim da vida, as reservas que fazia a Fernando Pessoa provinham talvez de que a cultura do Poeta da Ode Marítima sombreava de certa maneira o fado da inspiração nativa; outros dirão que a desintegração da personalidade manifestada nos heterónimos diluía aos olhos de Régio o impacto que o génio poético deve vibrar no leitor. E disse-me ainda o que lhe acontecera certo dia com um dos seus camaradas da Presença, poeta de mérito a nosso ver, mas que não enquadrava nesta categoria de fado; de «caso» que era, como digo, uma das categorias de Régio. Pois bem tendo-se encontrado, numa rampa coimbrã, com esse camarada numa tarde em que ele alardeava grandes coragens e decisões inconolastas, perguntara-lhe: — «Quer você que eu lhe diga uma verdade? — Olhe, você de poeta só tem uma coisa: a vontade de o ser; e isso não chega!»

Pois José Régio considerou desde a primeira hora a escritora Bessa Luís «um caso», algo de genial, de irredutível susceptível de trazer à literatura portuguesa algo de novo. Teria ele acertado? Não há hoje ninguém que o não saiba.

Vejamos estas coisas mais de perto e mais de vagar.

Tem-se dito e repetido que desde 1920 até certa aurora recente e abrilina o obscurantismo grassou em Portugal e a literatura esmorecida rastejou nos combros, muros velhos e talhões que não alegretes, furtados à treva da censura, senhora esta com quem não quero simpatizar e muito menos defender. Gosto muito de ler o Fray Gerúndio de Campazas do célebre Padre Isla. E uma das obras desse autor castelhano são as cartas para uma irmã em que lhe dá conta de como se esquivou à censura jesuítica a que estava obrigado por Regra e desobrigado por génio. O Fray Gerúndio é uma obra-prima e os censores, tacanhos, medíocres, olhando o tinteiro como um poço de veneno e de heresias, rabujavam ameaças e o que queriam era sumir a sátira que, quiçá, por tabela os atingia. Pensem outros de outra maneira, penso que as censuras foram um entorse na história e mais que uma selecta inofensiva, dezenas de novelas distractivas, canhenhos doutrinais com um grão de ousio ficaram estrangulados no míope exame dos senhores de estéril lápis e nariz inquisitivo. Mas daí a julgar que a censura impede, de raiz, a produção do espírito, vai um abismo. A literatura portuguesa, dizem-no escolarcas de bons e tudos e sentimo-lo todos, tem cimos de referência esplendorosa, épocas amarelecidas e de fraco pastio e calendas de boa, alta produtividade, variada em seu acervo de obras postas no escaparate e que se não podem arrumar, de escantilhão, numa fúria revolucionista para o vasa-barris obscurantista, Camões e o século dezasseis, o século dezanove e a sua geração de setenta são arcos de cordiheira afeiçoada pelo génio. Mas o que vai de século vinte, em produtividade literária escrita, quer em prosa quer em verso não envergonha país nenhum nem revessa trevas. A treva se existe recluiu-se a umas já hoje «ridículas gavetas que lograram certa popularidade na imprensa dos simples porque as encheram de esperança de nelas hibernarem obras-primas escritas à luz de candeia carcerária, ouvido à escuta da bruxa censurosa, Nem existiam as gavetas nem as obras-primas. O que saiu, no desafogo das liberdades, foi de nível tão cediço e tão mesquinho que os povos sem esforço imaginativo concluíram que foram obras forjicadas à pressa e trazidas a lume a ver se pegavam.-E agora, passados tantos séculos, já ninguém acredita nas gavetas, Assim se perdem as crenças!

O Fray Gerúndio é uma obra-prima e os censores, tacanhos, medíocres, olhando o tinteiro como um poço de veneno e de heresias, rabujavam ameaças e o que queriam era sumir a sátira que, quiçá, por tabela os atingia.

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E foi então que Bessa Luís publicou o seu grande livro — A Sibila — logo saudado por críticos de todas as obediências como uma aurora na ficção: portuguesa, Não admira. Era, dentro do sistema, digamos assim, de Bessa Luís, o que poderíamos chamar um romance de concentração com a esquadria do romance podado de abundâncias com princípio, meio e fim… Porque havemos de dizer adiante que os romances de Bessa Luís, romances, biografias e livros de viagem não têm fim, são escancarados como os desejos humanos, abertos ao indefinido do anelo e da ipena, vendo deles a desolada ladeira do Passado e a pouco rósea mas sim nublada vertente do Futuro. No meio, com fumo e: trípode, esta tremenda Sibila, a Quina do romance, e a escritora genial que nos cansa, nos assoberba, nos irrita, nos reconcilia e nos convence que a grande literatura se afasta avondo da leitura do Rapaz dos três calções e que as grandes obras são como o reino dos céus — padecem violência e só se rendem aos que acreditam que o homem se exprime nelas, nelas deixa o coração e a pele como as grandes cobras nos tojais ressecos. Mas isto é talvez uma frase e é difícil a todo o escriba, após leitura de umas semanas das obras da autora, não se contaminar com o tom oracular de Delfos ou da Bessa Luís…

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Em 1980 Agustina Bessa Luís estive na Faculdade de Filosofia em Braga para assinalar 30 anos de vida literária. Ao seu lado, em pé está o P. João Maia autor deste artigo.

Havia tanto agora que dizer da literatura de Bessa Luís. Solta de todo e qualquer programa, ao contrário dos neo-realistas, de 1954 até hoje nenhum escritor português manifestou maior pujança criativa. É na verdade um escritor deflagrado se este adjectivo é bastante para constituir categoria estética. E talvez o seja se considerarmos Camilo, rei da prosa portuguesa, Oliveira Martins em seu poder dramatúrgico, a espaços Raul Brandão em suas voltas oníricas desenganadas e enternecidas. E é nessa dinastia que se enquadra a escritora. Por isso a sua Obra é tão difícil de circunscrever e de abarcar. Num mar de prosa navegam grandes casarões de Entre-Douro e Minho, cidades inteiras, como o Porto de A Muralha, famílias desfolhadas ao longo de destinos tão miudamente analisados que nos escapam por excesso de dados; e para além disso rajadas de cultura, alusões de arte, de países exóticos e não exóticos, alusões a todo o mobiliário e adorno de civilização que evolui e vai trocando os broches no manto ou vestimenta. Temerosa analista que entra nas casas com história empoçada, abre um pouco as janelas, sacode as poeiras do tempo e — desde o rebate da porta, ao forno, aos saguões, às cozinhas, às altas salas com todos os seus oiros e tapetes e varandas e adminículos de adorno — tudo vai arrojando a uma prosa opulenta e cheia de adjectivos desencontrados. Podemos dizer que a sua escrita é infinitesimal e infinita. Seria uma tese a demonstrar e a defender. Infinitesimal pela minúcia, pelo arrecadar dos segredos existenciais, pela fúria definitória a que a leva a sua penetrante intuição e por esse tocar em todas as raízes da vida que é talvez apanágio do génio junto à feminilidade, pois os símbolos que ela usa ou desvenda, sem nunca descer da trípode de sibila, parecem às vezes um trabalho de agulha, mas de agulha solerte e que se aventa terminada a autópsia. Infinitesimal, distrai-se ou concentra-se no mundo de que rodeia os seus personagens e eles ficam afogados em oiro, como o Rei Midas, mas afogados. E ela mesma às vezes se cansa deles, como acontece com um de que já me não lembra o nome que ela deixa no meio de uma página, com estas palavras mais ou menos: — «Ficas aqui com o chapéu na cabeça e não tornas mais a aparecer». Assim como Eça de Queirós, a observação é de Nemésio, descansava na natureza inerte, de que dava prodigiosas descrições, a sua fadiga dos homens, Bessa Luís mergulha no encanto existencial e absolutamente ninguém como ela o faz na nossa literatura, à parte as reduzidas em espaço mas fundas intuições de Raul Brandão seu antecessor nestas sondagens. Seria aqui lugar próprio para acarear a velha teoria dos gregos de mímesis e de poesis para avaliar o quanto de experiência vivida e de criatividade inventiva vem à sua obra tão exuberante e vasta. Nela se citam ou, melhor, se aludem, que citar não cita ela, os trágicos gregos, Shakespeare, poetas e escritores antigos e modernos, obras de história, heróis reais e da mitologia, sagas primitivas e ideólogos modernos, a «Escola de Viena», e as escolas de pintura, estilos, costumes; o remoto do tempo e do espaço, casos abolidos, breves indicações da história clássica a que ela dá sequência depois de dois milénios, como nessa Embaixada a Calígula, seu livro de viagens tão sugestivo e novo de juízos…

A verdade humana de que têm segredo os romancistas é uma mescla de positividade e defeitos.

Digamos agora uma palavra, arriscada já se vê, sobre o que o meu Mestre P. João Mendes chamava a estrutura imaginativa ou do imaginário em Bessa Luís. Os leitores que forem como eu hão-de sentir uma certa implacabilidade e amargor ao lerem Bessa Luís. É porque, como diz o francês, a verdade é amarga ou, melhor, triste, e ela nos dá essa vitualha? Talvez não. A verdade humana de que têm segredo os romancistas é uma mescla de positividade e defeitos. O artista idealiza, criva por via ordinária. Mas há uma maneira de idealizar, a dos escritores de timbre existencialista, que ajunta dentro da mesma frase, da mesma página, contraditórios aspectos da psique e da realidade. Ao ler,.o espírito orienta-se para um lado, e o escritor sacode-o e serve-lhe o inesperado, pica-o por assim dizer. E assim Bessa Luís, para só dar alguns exemplos, ajunta o que não costuma andar vizinho ou, antes, anda mas não o dizem os escritores da praça comum: «Era bonito, mas de má índole …» «Era uma Torre do Tombo conversável». «Um fidalgo estúpido como uma corneta, mas que tinha distintas maneiras». «Era como uma galinha-da-índia empertigada e até bonita, mas que tinha distintas maneiras, mas descarnada até à alma». «Era um pregador famoso em retórica e carneiro de gelado». «Era um génio fadista mas agradável». A custosa leitura dos seus livros túrgidos de problemática vem ainda da ambiguidade em que eles flutuam. A ciência das paixões humanas desta escritora chega quase ao desvairo. Desde a inocência à perversão passando por todos os estados e desestados da vida, nunca se viu uma devassa mais minuciosa, com descansos à Proust e complacências de longe a longe; mas em geral o implacável é o espírito que paira sobre as águas. Haja vista ao romance Fúrias e até a parte da crónica do cruzado Osb. A lucidez de Bessa Luís não se deixou encadear pelos slongans de fresca data a que se acolhem as turbas ignaras, metendo na turba os propagandistas tidos por letrados. Disse acima que era a sua escrita infinitesimal e infinita; a grandeza dos seus livros expira em finais que são sempre impressionantes; são livros abertos que terminam num suspiro que nunca é de fadiga e é quase sempre de saudade, de amor à vida, qualquer coisa como o chamamento de uma transcendência que não nega nunca ao longo das obras embora a não acentue nem afirme. «Não digo que sim nem digo que não: talvez as coisas mudaram». E ainda: «A fina prosa desconversa as coisas de um coração perdido». E quando fala «dos felizes sem dia seguinte»?

(…)

Bessa Luís, muito acima dos arregimentados, dos de ouvido à escuta dos programas forjados em Paris ou além-Volga, integra-se na tradição da prosa portuguesa pela ductilidade plástica, o ritmo andante e desprevenido, o poder de símbolo, o instinto da vida e da morte e dos contrastes da díade cidade-campo, província cittâ-dolente, rusticidade e civilização a esvair-se. O título dos seus grandes livros são já de si significativos: Os Incuráveis, A Muralha, O Manto, O Susto, Canção diante duma porta fechada e, antes de todos, A Sibila. Se o nouveau roman em Portugal deu frutos pecos e ele mesmo é tão nosso como as botas de Gargântua ou os socos do Dr. Johnson, a literatura de ficção, remida pelos dons da autora de tais recursos expressivos, obriga, vai obrigar, no futuro, a um exame demorado deste «caso» que José Régio foi dos primeiros a anunciar como” gratamente alarmente no campo da nossa cultura…

Artigo completo em PDF: aqui. 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta seção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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