A Arte do Chá: uma leitura fascinante e pitoresca

O jesuíta do século XVI João Rodrigues Tçuzu foi uma importante testemunha da História japonesa. O seu livro "A Arte do Chá" foi recentemente publicado, pela primeira vez em Portugal, e é a sugestão cultural da Brotéria para esta semana.

O jesuíta do século XVI João Rodrigues Tçuzu foi uma importante testemunha da História japonesa. O seu livro "A Arte do Chá" foi recentemente publicado, pela primeira vez em Portugal, e é a sugestão cultural da Brotéria para esta semana.

“O costume de beber chá entre os chinas e japões é comum por todo o reino, e é uma das principais cortesias com que se agasalha um hóspede, antes é a primeira e mais ordinária com que o começam de agasalhar, e com que o entretêm, e finalmente com que o despedem (…) e se dá a beber não somente uma vez, mas muitas, quando se não dá solenemente, como costumam os japões. Com ele fazem seus cumprimentos e cortesias, agasalhando o hóspede e enquanto praticam sai [o chá] amiúde, para espertar os espíritos e passarem o tempo com algum acompanhamento decente”.  Com estas palavras abre o jesuíta João Rodrigues, o intérprete, um capitulo da sua História da Igreja do Japão, dedicado à arte do chá. A presente edição, justificada pela rareza da obra de Rodrigues, baseia-se na cópia manuscrita setecentista, redigida em português modernizado, contida no códice 49-IV-53 da Biblioteca do Palácio da Ajuda, como nos informa o editor Rui Manuel Loureiro, na rica e rigorosa introdução bio-bibliográfica que abre a edição da transcrição do manuscrito.

João Rodrigues Tçuzu, ou simplesmente Rodrigues, O Intérprete, imortalizado no romance de Michael Cooper, sj, nasceu cerca de 1561, em Sernancelhe (Viseu) e desembarcou no Japão muito jovem, em 1577, com apenas dezasseis anos. Três anos mais tarde entrará no noviciado da Companhia de Jesus, na véspera do Natal de 1580, em Usuki (Oita) no Japão. Fez os seus estudos de humanidades, filosofia e parte da teologia no Japão, mas foi a Macau para receber ordens sacras. O seu domínio do japonês falado mereceu-lhe o apodo de «tçuzu» (que significa «intérprete» em japonês).

Regressado ao Japão em 1596, empregou os seus dotes linguísticos e diplomáticos quando lhe foi pedido que representasse a missão jesuíta no Japão no seu contacto com os grandes senhores (daymios e shoguns), como Toyotomi Hideyoshi e Tokugawa Ieyasu, assim como com outras das figuras políticas mais importantes do seu tempo. Em 1598, foi nomeado procurador da missão, com o que se viu envolvido na controversa participação da Companhia de Jesus no comércio da seda entre Macau e Nagasaki. A sua falta de prudência nos negócios e na política fê-lo granjear inimizades com as autoridades e mercadores japoneses, provocando a sua saída do Japão em 1610.

A sua escrita, mesmo se carecendo de elegância, é de grande interesse, por descrever os costumes japoneses, vistos através dos olhos de um europeu perspicaz.

Estabeleceu-se em Macau, a partir de onde fez várias viagens à China (1613-1615, 1628-1633). Assumiu uma linha conservadora, em oposição à dos seguidores de Matteo Ricci, a respeito da controvérsia dos ritos chineses. Quando a corte Ming pediu artilharia a Macau, Rodrigues acompanhou a expedição militar de 1628 e participou na ação contra as forças invasoras de Manchúria. Numa expedição posterior, escapou por pouco com vida de uma fortaleza sitiada e partiu para Beijing/Pequim, onde foi elogiado pela corte Ming. A sua famosa Arte da Lingoa de Japam foi publicada (1604-1605) em Nagasaki. Como gramática de japonês falado, a obra é prolixa e imperfeita, mas constitui uma fonte valiosa de informação sobre o idioma usado na conversação. Descreve mesmo assim a poesia, correspondência epistolar, historia, etc., de Japão. Em 1620, publicou em Macau a sua Arte Breve da Lingoa Iapoa, uma versão mais breve e melhor que a gramática anterior.

Durante o seu exilio em Macau, reuniu materiais para a historia da missão japonesa. Acabou o período de 1549-1590, mas apenas se conserva a secção de 1549-1552. Para contextualizar este trabalho Rodrigues escreveu dois livros introdutórios, onde mostra o seu conhecimento e estima pela cultura japonesa, que incluem a geografia do Japão, assim como a sua historia, etiqueta, imprensa e, sobretudo, a cerimónia do Chá. A sua escrita, mesmo se carecendo de elegância, é de grande interesse, por descrever os costumes japoneses, vistos através dos olhos de um europeu perspicaz. Compôs uma Historia da Igreja do Japão e dos seus bispos. Foi reconhecido o valor dos seus escritos sobre a língua e cultura japonesas, quando foram traduzidas para este idioma. Algumas das atividades em que se viu envolvido tornaram a sua figura um tanto controversa. Veio a falecer a 1 agosto 1633, em Macau.

A presente edição de A Arte do Chá num pequeno volume de edição graficamente cuidada, num livro de bolso, vem trazer uma leitura fascinante e pitoresca para quantos se interessam pelo mundo nipónico, e pela importância do chá nas culturas orientais.

 


A Arte do Chá
João Rodrigues Tçuzu
Livros de Bordo, 2019, 132 págs.
Preço: 11 € – Comprar

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta seção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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