Terceira Semana – Acompanha Cristo, como Maria e João

Nos relatos da Paixão, Maria e João parecem ausentes. Eles estão lá, mas o foco é Jesus. Escolhem padecer, passivamente, acompanhando a decisão de Jesus, com a dor e impotência inexprimíveis de quem vê o seu amado morrer...por mim e por ti.

A Terceira Semana dos Exercícios Espirituais (EE) é um tempo dedicado à contemplação da Paixão de Cristo: desde a chegada de Jesus a Jerusalém, passando pela Última Ceia e a Oração do Horto, Julgamento, Crucifixão e Morte na Cruz.

O tempo das intituladas semanas dos EE de um mês é variável, sendo que na minha experiência a terceira semana foi cinco dias. Normalmente será um tempo compreendido entre quatro a seis dias. Porque dá Santo Inácio tanto tempo para experimentar este período sofrível da vida de Jesus? Como vivê-lo? As duas perguntas vão a par e passo.

 

Acompanhamos como Maria e João

Contraponho a vivência de Pedro com a de Maria e João, no seguimento de Jesus.

Admito que é-me familiar viver esta semana dos EE ao modo de Pedro. O desejo de seguir Jesus é apaixonado – “Senhor, estou pronto a ir contigo até para a prisão e para a morte” (Lc 22, 33) – de quem quer provar o seu amor. Mas é um apaixonado voluntarista, e por conseguinte, o foco está nele mesmo. Alguém como Pedro terá perguntas internas como “que posso eu fazer para sofrer mais por ti, Jesus?” Relembro que as forças de Pedro não bastaram.

Nos relatos da Paixão, Maria e João parecem ausentes. Eles estão lá, mas o foco é Jesus. Escolhem padecer, passivamente, acompanhando a decisão de Jesus, com a dor e impotência inexprimíveis de quem vê o seu amado morrer. No entanto, Maria e João são o rosto para o qual Jesus pôde olhar e saber-se amado.

Seguimos Jesus, como Maria e João, sem fazer nada, pedindo para sentir “dor com Cristo doloroso”. Foi este o modo de estar daqueles que o seguiram na cruz.

 

Contemplação e Afeto 

Os pedidos de graça da primeira e terceira semanas apelam a sentimentos desagradáveis. Mas enquanto que na primeira semana, a graça pedida era sobre mim “(…) vergonha e confusão de mim mesmo (…) ”, nesta terceira semana, o centro é Jesus “(…) dor, sentimento e confusão, porque por meus pecados vai o Senhor à Paixão (…)”.

S. Inácio apela ao uso dos sentidos, para adequar mais o que se reza à realidade, dando algumas possibilidades como, propor contemplações à noite por ser de noite a passagem usada do Evangelho, de dia procurar lugares escuros, temperança no comer, (…).

Para as contemplações, S. Inácio usa passagens bíblicas onde vemos as ações de Jesus, para entrarmos mais facilmente na cena. Não utiliza os discursos de Jesus, como aparece no Evangelho de S. João, pois levar-nos-iam mais à reflexão.

Com as contemplações, passamos do conhecimento sobre a paixão (como quem lê notícias da guerra na Ucrânia, distante de mim) para o conhecimento da paixão (de quem vive por dentro, quem está na Ucrânia).

Seguimos o Sim de Cristo que fez uma aliança connosco. Porque é que o Pai não evitou que Jesus sofresse? Não parece do amor que se queira que o outro sofra. E o Pai ama muito Jesus. Mas o Pai não quer que o Filho negue a circunstância em que vive. E Jesus assume completamente que segue-nos onde quer que estejamos.

Acompanhamos um Deus relacional. Não uma ideia.

Acompanhamos Jesus que vai à cruz por mim. Não é meramente por minha causa (como culpa), mas por mim… por Amor a mim.

Há dias vi o filme Imperdoável (Spoiler Alert: este parágrafo antecipa A cena do filme) com a Sandra Bullock. O clímax do filme é a descoberta de que a personagem principal, vítima discriminada pela sociedade após a condenação a 20 anos de prisão por homicídio de um chefe da polícia, era inocente, e se tinha sacrificado pela irmã de 4 anos que acidentalmente disparou a espingarda sobre o chefe da polícia. Esta entrega revolveu-me as entranhas. Mas – pensei eu – Cristo entregou-Se por mim e vivo como se isso fosse um dado garantido. Aaah!… se a Sua entrega se entranhasse em mim!

Inácio anseia por uma transformação afetiva de cada um de nós a Jesus. Que nos inclinemos, que nos apeguemos a Jesus, para que desejo e vontade se direcionem para ele. Como a mãe se inclina para o filho. Como o amado para a amada.


Imagem: Vasco Lucas Pires, sj