A verdade do apagão e o apagão da verdade (parte 2/2)

Ainda confiamos na ciência? Ou antes, no amigo “que disse” que outro amigo recebeu um SMS “que dizia” algo de inacreditável e assustador?! O que é a verdade? E a sua manipulação política (pós-verdade)? Há soluções contra as "fake news"?

O PROBLEMA: A MENSAGEM VIRULENTA

Foi numa segunda-feira solarenga que fomos apanhados desprevenidos com o apagão. Durante o almoço, conversava-se sobre o tema com uma certa tensão de fundo e, admito, senti algum entusiasmo pela aventura. De repente, alguém disse de forma fatídica, altiva e sem assumir qualquer responsabilidade:

– Ouvi dizer que a CNN diz que foi um ciberataque e foram detetados uns submarinos russos na nossa direção!

Eu, num instante de incredulidade e medo, pensei para o meu coração:

– Será desta que Portugal perde o seu cantinho tão pacífico? – mas, abafado pelo ceticismo, respondi: – Não, não confio e sou contra essas teorias conspiracionistas. Além disso, o WhatsApp nunca foi de confiança.

Ao que me respondem:

– Mas foi um amigo meu, que costuma saber destas coisas.

E caí na ratoeira!

– Manda-me a mensagem para eu verificar depois.

Enquanto não verifiquei, a notícia remoeu-me e não me podia defender porque não sabia como a negar.

Mais tarde, na rua, uns vizinhos desabafaram comigo outra notícia do WhatsApp, desta vez atribuída à REN: “pelo menos 72 horas sem eletricidade”, e, previam os vizinhos em desespero, “sem água!” Eu, talvez ingenuamente, talvez não: tentei confrontá-los, assegurando que não poderia ser tanto tempo, seria demasiado para os hospitais e outros serviços essenciais. Não parecia realista que o sistema não fosse reposto em breve.

Apesar de o governo e as entidades responsáveis desmentirem várias vezes ao longo do dia as notícias que circulavam nas redes, esses comunicados não chegaram até mim. Só no final do dia, quando a Internet foi reposta, encontrei notícias que denunciavam[1] estas e outras fake news como: “Fenómeno atmosférico raro” ou “Incidente com avião de combate a incêndio” (não sendo falsa, esta última foi descontextualizada, pois era relativa a um apagão de 2021).

 

O APAGÃO DA VERDADE NA ERA DA PÓS-VERDADE

No artigo anterior, exploramos as causas do apagão. Já cumprimos a fase do fact check. O polígrafo já dissipou as sombras da falsidade, mas não voltou tudo ao normal. O medo, a incerteza, a desconfiança entranharam-se mais um pouco no nosso dia a dia: a desinformação[2] venceu de tal modo que há quem seja capaz de dizer com emoção: “Ok, o ciberataque não aconteceu, mas podia ter acontecido, é-me igual”. Este pensamento é fatalista, irresponsável e indiferente à verdade autêntica, e é ainda justificado pelo “eu sinto, logo é verdade”. Mesmo que algo não tenha acontecido, se reforçar a nossa crença pessoal, neste caso o medo de origem geopolítica, passa a ter os efeitos de como se tivesse acontecido. É semelhante ao “Ministério da Verdade” (da obra “1984”, de George Orwell, cujos membros reescrevem os registos históricos para que estes estejam sempre de acordo com a ideologia atual do partido. Resumidamente, a verdade torna-se aquilo que se quer que seja.

Assim, vemos como as fake news diluem os factos e apresentam uma “verdade” alternativa, reforçada por sensacionalismos e clickbaits, alimentados pela tentação do “clique aqui e veja o segredo que o sistema não quer que você saiba”.

As fake news, em textos ou até em vídeos (deepfakes), são terreno fértil para a criação de “bodes expiatórios”, populismos, demagogias, polarizações, medidas mais autoritárias e outras manipulações políticas, na medida em que as fake news definem realidades alternativas que justificam medidas políticas intoleráveis em situações normais.

Os mecanismos de fake news tornam-se claros no exemplo do “ciberataque”. A mensagem que recebi era tão complexa, que não era verificável. Ainda assim, há quem a divulgue, por vir de “alguém de confiança”. Além disso, as redes priorizam conteúdos que geram emoções fortes em vez da verdade. Lee McIntyre, um filósofo célebre nesta área, afirma que, “quando estamos emocionalmente comprometidos com um tema, toda a evidência experimental mostra que a nossa capacidade para raciocinar bem se verá provavelmente afetada”[3]. Esse enviesamento cognitivo é-nos natural e torna-nos vulneráveis a quem queira promover as suas ideias, especialmente se conseguirem desautorizar todas as outras fontes de informação. O enviesamento cognitivo está em todos nós, não só “nos outros”.

Outro mecanismo de fake news consiste na mentira baseada em alguma verdade, como a notícia do “incidente de avião” que tinha ocorrido em 2021, ou ainda na mentira feita só com a verdade, por exemplo, a história de um subalterno com o seu almirante: um dia, chateado, escreve no diário de bordo: “Hoje o nosso almirante não se embebedou”. Na verdade, o almirante nunca se embebedou. Do ponto de vista literal, o subalterno não mentiu, mas o “hoje” sugere uma exceção, induzindo o leitor a pensar que em outros dias o almirante caia nessa debilidade.

À subordinação da verdade aos interesses públicos chama-se pós-verdade, uma palavra que se tornou famosa em 2016 com o Brexit e certos processos eleitorais. O prefixo “pós” indica um tempo no qual o conceito “verdade” já não tem relevância. McIntyre não se contenta com a definição do dicionário de Oxford, que diz que, na pós-verdade, os sentimentos importam mais do que os factos. Antes, o autor explica a razão dessa subordinação, nomeadamente, selecionar ou criar apenas os factos que suportem uma certa ideologia.

A pós-verdade defende a ideia de uma verdade alternativa, não oficial, escondida por interesses alheios.

O mesmo filósofo afirma que

há [vários] objectivos na pós-verdade: um é fazer com que acreditemos numa falsidade. Outro é fazer com que desconfiemos de qualquer pessoa que não acredite na mesma falsidade, e até que a odiemos” [4].

Dois modos de caminhar nessa direção consistem, por exemplo, em gerar sentimentos coletivos de medo e ansiedade, bombardeando os media com notícias angustiantes que reduzem toda a realidade a crimes e catástrofes. Isso afeta as nossas decisões e poder de voto, tendencialmente mais dependentes desses sentimentos do que da verdade. Um segundo modo consiste em colocar ao mesmo nível de discussão um cientista e um negacionista. Neste caso trata-se de uma falsa equivalência, que não constrói a verdade; pelo contrário, gera o descrédito na ciência, no jornalismo, nas instituições e enfraquece a democracia.

Afinal, voltamos à pergunta de Pilatos: “Que é a verdade?”(Jo 18, 38). Aristóteles dá-nos pelo menos uma definição mínima da verdade: “Dizer aquilo que é não é, ou que aquilo não é é, é falso; por outro lado, dizer aquilo que é é, ou que aquilo que não é não é, é verdadeiro” [5]. Classicamente, a verdade tem sido vista como uma adequação à realidade (adaequatio) ou um desvelamento (aletheia) daquilo que as coisas são na sua essência (ou seja, desvelar o véu ilusório do devir, para descobrir a essência que permanece). O cristianismo, por outro lado, recebe do judaísmo a noção de verdade como confiança (emunah). Trata-se de uma certeza baseada na promessa de Deus, não uma certeza provada cientificamente, mas provada pela relação fiel. Algo parecido aparece igualmente na etimologia de truth, na sua relação com troth, palavra arcaica para noivado, que também pode sugerir um caminho a ser percorrido em conjunto, cuja força está na confiança e esperança. Curiosamente, parece que hoje tendemos a essa noção de verdade associada à confiança, mas de forma desvirtuada, na medida em que não confiamos no testemunho ou exemplo que a pessoa dá (como confiavam os primeiros cristãos nos atos dos apóstolos), mas apenas no que é dito, mesmo que desencarnado de factos e ações. McIntyre afirma que é pelo caminho de confiança e amizade que se dialoga até com negacionistas, a fim de aproximar todos à verdade. Por fim, Santo Agostinho afirma que o Homem é capaz de alcançar a verdade, associada ao próprio Deus, suma Verdade, Bondade, Beleza e Unidade.

Voltemos às fake news, que discutíamos inicialmente.

 

SOLUÇÕES CONTRA AS FAKE NEWS

Há quem crie desinformação, mas também quem a divulgue e quem acredite nela. Poderá haver sempre quem a crie, mas podemos não divulgar nem acreditar. É imprescindível educar o pensamento crítico desde cedo. Temos o dever de apontar as mentiras, insistir com a verdade, vencer o conformismo da ignorância voluntária, vencer a preguiça da verificação e não divulgar o que não se sabe.

O contrário seria a vitória da pós-verdade, a vitória dos céticos que dizem: “Eu já nem vejo notícias. Eles são todos mentirosos. Nem me dou ao trabalho de verificar com fact-checkers, porque eles podem ser todos tendenciosos. Porque é que é importante votar? Eles são todos iguais.”.

Esses céticos são perigosos, tal como nos avisou a filósofa Hannah Arendt ao estudar o Holocausto: o “perigo é que o povo desista da verdade como um todo, e assim pode-se fazer o que se quiser com eles”.

Portanto, na prática, e, partindo da minha experiência do SMS alegadamente proveniente da CNN:

Antes de disseminar oralmente ou nas redes, pesquisar se a notícia já foi desmentida, colocando o texto integral ou palavras-chave da notícia, acrescentado alguma como “polígrafo”, “fact check”, “hoax”. Além disso, no caso dos deepfakes, há ferramentas na internet para verificar com alguma certeza se um vídeo é ou não feito por AI.

De forma mais extensiva, eis o que Lee McIntyre[8] sugere:

  1. Verifique os direitos de autor.
  2. Verifique a notícia junto de diversas fontes.
  3. Analise a credibilidade da fonte (por exemplo, há quanto tempo está no mercado?).
  4. Verifique a data de publicação.
  5. Avalie a perícia do autor no assunto.
  6. Pergunte: Enquadra-se com o meu conhecimento prévio?
  7. Pergunte: Parece realista?

Concluindo, a notícia desmentida da CNN exemplificou o elevado nível de manipulação emocional das fake news. Estas servem o propósito de subordinação política da verdade descrito na ideia filosófica contemporânea da pós-verdade. Uma era de pós-verdade enclausura as pessoas em câmaras de eco, onde estas evitam os factos contrários aos seus sentimentos e pretendem impor as suas perspectivas a outros. Nestas bolhas, proliferam as fake news como verdade alternativa escondida dos demais. Daí surge a necessidade do fact check antes de disseminar qualquer conteúdo.

Enfim, a luz voltou na manhã seguinte ao apagão. Acordamos como de um sonho, onde nos encontramos com os vizinhos na rua. Surge agora a oportunidade de recentrar a vida logo nos primeiros instantes de criação do novo dia… Recebemos tudo outra vez, gratuitamente… Mas será que voltou tudo ao de sempre? Será que descobrimos e saboreamos, por uns instantes, o valor do silêncio e da verdade de estar diante do outro, inteiro? O valor da Verdade que nos chama pessoalmente?

 

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[1] Ver notícias em: Observador; Público e Sábado.

[2] No que diz respeito ao termo «desinformação», em inglês, distingue-se entre misinformation, informação falsa, e disinformation, informação deliberadamente falsa.

[3] McIntyre, Lee. Posverdad. Trad.: Canga. Madrid: Cátedra, 2019.

[4] Ibid.

[5] Metafísica, 1011b25-27.

[6] Notícia no Público (2024, 12 de maio): “Tornarmo‑nos cépticos, desistir da ideia de verdade é o que o autoritário quer.” Secção “Mundo”.

[7] Ibid.

[8] Ibid.