Ver-se grego!

Que coisa é o mundo que nos espanta e uma ética que nos liberta em tempos fechados. Heranças gregas que dão forma ao modo como vivemos e nos vemos.

Com toda a certeza, sabemos bem que nada do que temos agora nasceu agora. Nada há de crescido que não tenha sido embrião. As nossas palavras já foram outras palavras semelhantes: os meus avós falavam com palavras avós, agora eu falo com palavras netas dessas palavras.

Quanto ao modo como pensamos, entendemos e olhamos o mundo, não há de ser diferente. É certo que o mundo que vejo só eu o vejo e que, sendo semelhante ao mundo que vês, são as diferenças que ora notamos, ora produzimos, que nos enriquecem e espantam. Mas, meu caro ou minha cara, não fomos os primeiros a olhar o mundo. Por isso, hoje quero partilhar contigo esta pequena incursão à Grécia antiga. Mais especificamente àqueles que movidos ou pelos deuses, ou pela curiosidade, quiseram deixar-nos o testemunho de que nos cabe a nós, mulheres e homens, olhar o mundo e espantarmo-nos por ele.

Tales de Mileto foi um destes primeiros espantados. (Não que não houvesse outros anteriores, mas temos que começar por algum lado). Foi um grego que não era grego: Mileto era uma colónia grega, na actual Turquia. Conta-nos Platão, no Teeteto, que certo dia enquanto Tales caminhava a olhar os astros, distraído em querer saber o que se passava no céu, caiu num poço por não olhar onde punha os pés.

Podemos dizer que os filósofos começaram por ser estes homens, levados pela curiosidade, desejosos de descobrir o princípio-origem de tudo e que coisa são as coisas. Tales, entre outros, pertence ao vasto grupo de filósofos pré-socráticos, que tinham como objecto da sua filosofia o Cosmos, os fenómenos da natureza e a sua ordem. O mundo dava-se aos olhos, estava ali, e a filosofia era a porta para entrar no mundo, perceber que coisa é ele, de que é feito, como funciona e se organiza. Mais tarde a filosofia partirá de outra questão, “porque é que as coisas são, quando podiam não ser?”, mas para os primeiros filósofos gregos, para quem o conceito judeo-cristão de criação ex nihilo (do nada) não constava na sua cosmovisão, era o ser do mundo que os assombrava. Se hoje submetemos o mundo às ciências duras, devemos saber que essas ciências são filhas do espanto filosófico. Pitágoras, Demócrito, Epicuro, Arquimedes, Parménides, Aristarco, Zenão, Sócrates, Platão, Aristóteles, e tantos outros, sabem-no.

Mas voltando a Tales, que era também astrónomo. Esta atitude distraída não significa que os filósofos eram… distraídos. Só por estar atento aos astros é que os olhos lhe fugiram do chão. Diz-me lá: quando estás espantado por um coisa, não te fogem todas as outras? Esta atitude filosófica (o espanto) não é património de alguns, mas antes interior e espontânea a qualquer homem e mulher.

Mais tarde, tanto Platão como Aristóteles, deixam-nos o belo testemunho de que a filosofia nasce do espanto (thaumazein, esta palavra grega podemos também traduzir por assombro, perplexidade, admiração, estranheza, maravilhar) que nos afecta e suscita emoções e paixões (pathos). Talvez assim a filosofia já nos pareça uma atitude intrínseca e espontânea. Repara só na criança curiosa que não se cansa de perguntar porquê atrás de porquê.

Estando mais do que entendido que a filosofia não diz apenas respeito à razão pura e árida, tendo entendido qual a lente que os gregos usam para ver o mundo (o thaumazein) e como esse impulso a filosofar nos trouxe grande parte daquilo a que chamamos ciência e filosofia, vamos então entrar num caso “prático”.

Aquilo em que cremos e a que, pelo intelecto e conhecimento, aderimos, manifesta-se na forma como vivemos. Desta forma, o pensamento filosófico manifestava-se também em correntes éticas. Este nosso “momento pandémico” (chamemos-lhe assim) parece-me ideal para apresentar uma corrente: o estoicismo. Vamos já perceber porquê, mas antes escutemos este poema de Ricardo Reis, largamente influenciado pela corrente estóica.

Pobre Lídia. Será que os estóicos eram assim tão entediantes? Não me parece. E não devemos ficar presos a esta aparência.

A finalidade da ética estóica é a tranquilidade interior, a apatheia (apatia), não enquanto esse estado depressivo, mas enquanto indiferença face aos eventos, que leva à ausência de paixões extremas, ansiedade e perturbação (um estado análogo à ataraxia procurada pelos epicuristas). O Homem deve ser senhor-de-si, comandar-se a si-mesmo (autharkeia), e é o domínio dessas paixões e afeições que produz o estado de apatheia e lhe permite ser feliz.

Assenta num princípio que nos dias de hoje é muito querido nalguns campos terapêuticos: “O que perturba a mente do Homem não são os eventos, mas os seus juízos acerca dos eventos”, escreveu Epicteto. O mesmo Epicteto (filósofo estoico) escreve, no início do seu Manual, que “de todas as coisas existentes, algumas estão sobre o nosso poder e outras não”. Segundo os estóicos, a grande desgraça do Homem é querer controlar e mudar tudo aquilo que não está sob o seu domínio (nem nunca há de estar). Se queres evitar a dor, a morte ou a doença, a felicidade escapa-te. Mas se a tua vontade é harmonizar a própria vontade com o curso da natureza, e se as tuas atitudes o manifestam, a felicidade aguarda-te. Há aqui um convite a ser indiferente (apatheikos, “apático”) aos acontecimentos, porque apenas é meu o modo como lido com as impressões destes, e só isto posso controlar. Tudo o mais que acontece, acontece de acordo com uma rede de causas e efeitos, na estrutura racional do Universo, a que chamam Logos.

É a este Logos que o Homem deve aderir. Isto, que parece uma atitude passiva, exige virtude. Para ser um com o destino das coisas, é necessário evitar tudo o que o impede de tal. Para tal fim, há quatro virtudes cardeais, assim apontadas por Platão e assumidas pelos estóicos, que devem orientar e determinar o modo de agir humano, num auto-aperfeiçoamento:

– sabedoria – que permite atravessar os eventos de modo calmo, lógico e racional;

– temperança – autodomínio e moderação;

– justiça – tratar os outros de modo honesto e justo;

– coragem – não só em grandes adversidades, mas na clareza e integridade do quotidiano.

Nestes últimos meses ganhámos consciência do nosso limite. Há, de facto, situações que não podemos controlar e a que estamos sujeitos, não por passividade, mas porque o mundo se impõe. E agora que nos vemos gregos com uma pandemia, talvez ver a pandemia a partir deste grego nos traga algum fruto. Qualquer mal que nos aflige pode ser vivido de uma maneira equilibrada: entre a conformação necessária, que olha racionalmente as circunstâncias, e a resiliência virtuosa, que nos permite nadar até à costa depois do naufrágio. Foi o que fez Zenão de Cítio, fundador da escola estóica, que chegou a Atenas náufrago e sem posses.

 

Foto: Greg Rakozy, Unsplash