Quando a Misericórdia se torna música

Pode a misericórdia tomar a forma de música? Poderá a música, enquanto linguagem, transmitir ou dialogar com a profundidade destas dimensões humanas, como o faz a linguagem das palavras, da prosa e da poesia?

Pode a misericórdia tomar a forma de música? Ou a fragilidade? Ou talvez a esperança? Poderá a música, enquanto linguagem, transmitir ou dialogar com a profundidade destas dimensões humanas, como o faz a linguagem das palavras, da prosa e da poesia? Muito facilmente, caímos na armadilha de crer que a arte se resume à sua beleza: não que isso seja pouco; pelo contrário, a sua beleza e o modo como nos toca e nos fala, encerra em si mistérios que não compreendemos. Lembremos a beleza da natureza, a beleza de uma obra de arte, ou a beleza das coisas simples e pequeninas, como um sorriso ou um abraço. Uma beleza que se vê, que se toca.

Mas e a música, enquanto arte não-física, que não se pode tocar nem ver, poderá expressar aquelas dimensões humanas? A mesma armadilha, de que falava, poder-nos-á levar a dizer que «não»; ou um «talvez, se a música tiver texto», como se este fosse uma condição necessária para a expressão de uma ideia. Mas não é assim. Muito pelo contrário, a música, desde a sua concepção à sua composição e execução, pode ter sem si uma mensagem muito clara, uma ideia muito definida, um afecto muito patente. Não expressará a Clemência de Tito (KV 621), de W. A. Mozart, a misericórdia e a compaixão de uma forma incontornável? Não transmitirá o Va piensiero, o coro dos Escravos Hebreus, na ópera Nabuco, de G. Verdi, um brilhante misto entre nostalgia, injustiça e esperança?

A linguagem musical tem dentro de si, enquanto arte, uma riqueza de significados que complementam o que as palavras dizem. Mas vai mais além dessa simbologia auditiva: ela dá força às palavras, sim; mas tem a capacidade de dizer o indizível, porque pode mover os afectos, como poucas outras linguagens podem – sem que, com isto, queiramos tirar a importância da palavra. A título de exemplo, proponho que olhemos uma obra em particular.

Em 1962, a propósito da sagração da reconstruída Catedral de Coventry, destruída durante os bombardeamentos alemães (de Segunda Guerra Mundial), Benjamin Britten (1913 – 1976) apresentou o seu War Requiem, Op. 66. Só isto já bastaria para um simbolismo que falaria antes sequer da música: um concerto, um Requiem, tocado em memória das vítimas, numa Catedral reconstruída, com a escolha propositada de três solistas de nacionalidades envolvidas no conflito (uma soprano russa, um tenor inglês e um baixo alemão).

Mas Britten levou este discurso um pouco mais além. Escolheu para textos do seu concerto não-litúrgico, não apenas os textos latinos da missa de Requiem, mas uma selecção de poemas de Wilfred Edward Owen (1893 – 1918), um soldado morto na Primeira Guerra Mundial, que expressa, nos seus textos, a dureza da guerra. Conjugando as duas linguagens, a latina e a inglesa, a litúrgica e a poética, a religiosa e a profana, Britten parte para a sua composição musical diante de um tema doloroso – a Primeira Guerra ainda estava muito presente, a Segunda tinha terminado há pouco e vivia-se a Guerra Fria – mas com uma mensagem muito concreta em mente. Em todo este projecto de composição, nos simbolismos que carrega, o autor já está a dialogar, a pôr a sua sensibilidade em diálogo com aquilo que expressará na composição.

Apesar desta obra estar construída essencialmente em torno do texto, também na orquestração Britten se expressa. Olhemos alguns exemplos. No Dies Irae, o texto latino que descreve o juízo final, o compositor associa-o ao cenário de batalha, preenchendo-o de motivos nem sempre subtis, como o trompete soando, sozinho, uma fanfarra de chamada para a guerra, ou a percussão em assumido tom marcial (como, aliás, o escreve na partitura).

*Gravação da estreia do War Requiem, dirigido pelo compositor

 

O mesmo ambiente quase apocalíptico e sufocante, entre a batalha humana e o juízo divino, regressará no Libera me, o texto que expressa o desejo pelo perdão de Deus, aqui assumido como um grito quase visceral. A primeira parte desse número, com o texto latino, induz a uma angústia e um desespero, diante da batalha e da inevitabilidade da morte: Britten, com muita arte, usa da linguagem moderna, entre o tonalismo e o modalismo, para expressar a desarmonia e induzir a repulsa diante do sofrimento que a guerra, despoletada pelas sucessões de egoísmos, trouxe, pondo fim a tantas vidas.

A segunda parte do Libera me é construída a partir de um poema de Owen. Coloca-nos diante de um imaginário, em que um soldado desperta, no profundo silêncio, num lugar escuro, rodeado de corpos mortos. Ergue-se e caminha entre eles, até que um deles se ergue e – de forma inesperada! – levanta a mão, como que para o abençoar. Segue-se um diálogo entre os dois, no qual se percebe que são soldados de lados opostos da trincheira, e que o primeiro matara o segundo. Britten expressa a angústia e a revoltante realidade do poema, de forma brilhante: através do silêncio. Os instrumentos reduzem-se a um acorde, como um eco longínquo, dando lugar à melodia lamentosa dos dois solistas, regressando em alguns momentos, para expressar algum afecto que as palavras transmitiram.

Este poema termina com o soldado-morto, reconciliado com o seu destino, a convidar o seu assassino a repousar consigo: «Let us sleep now». Britten transforma este verso num belíssimo diálogo de reconciliação entre os dois inimigos, no qual expressa o seu desejo de paz, mas também a noção de que ambos são vítimas da mesma guerra. O concerto acaba com todos os seus intervenientes a acrescentar alguma coisa à reconciliação dos soldados. Enquanto os dois cantam, o coro de vozes brancas, quase como um coro celeste, intervém com o texto latino «In paradisum», a súplica latina que diz «levem-te os anjos ao paraíso». A estes, com a orquestra toda e o órgão, juntam-se o coro e a soprano reforçando esta súplica, sem que nunca os dois solistas deixem de cantar o seu desejo de repouso e reconciliação.

*Gravação da estreia do War Requiem, dirigido pelo compositor

 

Gera-se, pela primeira vez, um ambiente harmonioso e prazeroso, que é subitamente interrompido por sinos, os mesmos que antes anunciavam a guerra, seguidos do texto exequial «Requiem Aeternam», trazendo de novo à memória as incontáveis vidas perdidas na guerra, mesmo aquelas que desejavam a paz e a reconciliação. Os cantores tentam retomar, por duas vezes, o tema harmonioso, mas são sempre interrompidos: Britten, um pacifista realista, deseja a paz, mas sabe da fraqueza humana e mostra-a, precisamente para realçar a fragilidade da paz. O coro, por fim, a capella, conclui a obra cantando «Que descansem em paz», retomando o tema do Kyrie eleison, com que se iniciara a obra.

A música é também ela uma linguagem, capaz de expressar ideias e imagens, conceitos e pensamentos. Ela é um forte instrumento filosófico, religioso, político ou social, como nos mostra a história da música. O exemplo que vimos faz prova disso, mostrando-nos como um concerto encomendado para a sagração de uma catedral, se pode tornar num memorial das vítimas da guerra, mas também numa reflexão pessoal sobre a fragilidade, o sofrimento, a misericórdia e a esperança.

 

 

Foto: Dayne Topkin, Unsplash