Ética na Economia: a importância das Virtudes

Apesar da existência dos códigos deontológicos e regras de conduta que nos indicam critérios decisivos, os agentes económicos precisam também de adquirir virtudes que os ajudem a valorizar e a praticar (não como mera obrigação/dever) os valores éticos na atividade económica.

O Compêndio da Doutrina Social da Igreja refere que a distinção entre moral e economia não implica uma separação entre os dois âmbitos, mas ao contrário, uma importante reciprocidade(DSI 331). A ética procura estabelecer um conjunto de regras de conduta para uma convivência ordenada e justa no seio de  uma sociedade. Estuda, também, os valores e as virtudes dos seres humanos. A actividade económica é um âmbito relacional de uma sociedade, pois é composta por agentes económicos (famílias, empresas, instituições financeiras, estado, entre outros) que se relacionam entre si através de transacções de bens, serviços e capitais. 

Os agentes económicos são muitas vezes confrontados com dilemas éticos relacionados com as suas relações económicas, face à exigência de um crescimento económico contínuo e ilimitado, que se converteu num fim em si mesmo, conduzindo a desequilíbrios económicos e ao desrespeito da dignidade da pessoa humana. Neste contexto, a ética oferece um contributo valioso no sentido de ordenar de forma justa a actividade económica. 

Para exemplificar a coexistência entre a economia e a ética, verificamos a criação e a implementação de códigos deontológicos nas actividades profissionais e de regras de conduta nos vários organismos públicos e empresas. Trata-se da aplicação da chamada Ética Deontológica, que estabelece critérios mínimos que devem ser respeitados nas relações humanas. Este sistema ético avalia as acções em função de princípios éticos bem definidos e permite universalizar o fenómeno moral, o que, numa economia cada vez mais globalizada, facilita a sua aplicação.

Os códigos deontológicos e as regras de conduta têm como objectivo estabelecer um compromisso ético ao nível das relações e incluem princípios  como:  justiça, igualdade, proporcionalidade, boa-fé, lealdade, qualidade, integridade, competência, responsabilidade, urbanidade, transparência entre outros. 

Verificamos que, cada vez mais, a sociedade exigiu da Economia, a valorização da dimensão ética, pois estes códigos oferecem uma imagem positiva de integridade, confiança, responsabilidade e reputação dos intervenientes da actividade económica. 

Contudo, citando Joseph Ratzinger que nos diz: “(…) atitudes espirituais determinam comportamentos económicos (…)” (Ratzinger 2005) , surge a seguinte questão: e as Virtudes? Para além dos códigos que indicam os critérios de responsabilização das acções, os agentes económicos não deveriam aprender a examinar e cultivar as virtudes relevantes para a sua actividade?

Penso que podemos também aprender com a ética das virtudes de Aristóteles. Para este autor clássico, as virtudes são hábitos bons que conduzem os seres humanos para o seu fim, que é a felicidade. De acordo com a Doutrina Social da Igreja, o fim do ser humano económico, é o bem comum.

Aristóteles refere que a virtude da justiça ocupa uma posição central, pois sem ela será impossível julgar e agir de forma justa. Na economia, é importante administrar e relacionar de forma justa, ou seja, encontrar critérios equilibrados nas opções, de modo que haja equidade, harmonia e respeito pelos agentes económicos.

É verdade que as normas aristotélicas defendem o estabelecimento de «(…)limites rígidos para o crescimento à medida que fosse necessário para preservar ou aumentar a distribuição de bens de acordo com o merecimento» (MacIntyre 1991) , mas a aplicação da ética das virtudes pode assumir um papel importante na formação da consciência humana. 

Aristóteles defende que os seres humanos, sendo criaturas dotadas de razão e de vontade, devem aprender, discernir e pôr em prática as virtudes. É fundamental, para o ser humano económico cultivar virtudes como a justiça, colaborando na promoção do bem comum junto da sociedade. 

Apesar da existência dos códigos deontológicos e regras de conduta que nos indicam critérios decisivos, os agentes económicos precisam também de adquirir virtudes que os ajudem a valorizar e a praticar (não como mera obrigação/dever) os valores éticos  na atividade económica, por exemplo, investindo na formação ética a nível académico, apostando na formação ética contínua da sua atividade profissional, praticando casos práticos, para que possam refletir e resolver os dilemas éticos, e promovendo a divulgação interna dos valores éticos das instituições. 

Bibliografia:

MacIntyre, Alasdair. Justiça de Quem? Qual racionalidade? . S.Paulo : Edições Loyola , 1991.117-137

Ratzinger, Joseph. Europa – Os seus fundamentos hoje e amanhã . Apelação: Paulus Editora, 2005. 42

Mota, Francisco Sasseti da. Da Catástrofe às Virtudes – A crítica de Alasdair MacIntyre ao liberalismo emotivista . Cascais : Princípia Editora , 2012. 93-100

Sé, Santa. “Compêndio da Doutrina Social da Igreja.” Compêndio da Doutrina Social da Igreja. 2004. https://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/justpeace/documents/rc_pc_justpeace_doc_20060526_compendio-dott-soc_po.html.