Vias para entrar no outono

Quase sempre os rituais se desenvolvem em torno dos solstícios, ou dos equinócios; celebram as novas colheitas, os novos frutos, as novas cores, despedindo-se das antigas. São exercícios de entrar nas estações.

 

Cai uma castanha…

Calam-se de súbito os insectos

entre as ervas

Matsuo Bashô

 

Na cidade de Elvas, onde nasci, o fim do verão é celebrado na passagem do dia 20 de setembro para o dia de São Mateus (21 do mesmo mês) com uma longa procissão que, em anos generosos, chega a unir dois dos pontos mais afastados da cidade: a Sé, no coração das muralhas, e o Santuário do Senhor Jesus da Piedade, lugar de grande devoção que, na infância, albergava um fascínio quente, nas velas sempre a arder das promessas, nos membros de cera (pernas, pés, mãos) oferecidos pela saúde de um filho, de um irmão, de um conhecido. A manhã do dia 20 começa com o estalar dos foguetes; todo o dia o baque seco sobre nós (um primeiro foguete no início do ano escolar, a nuvem de fumo levada pelo vento sobre os pavilhões) anuncia que o verão terminou e que em breve será outono. As festas de São Mateus (alargando-se por duas semanas depois da procissão) trazem consigo as primeiras chuvas e os primeiros dias cinzentos, abafados, feitos de um tempo parado, solene; tudo à volta parece encher-se do perfume do incenso, espalhado pelo acólito à frente dos pendões da procissão. As famílias descem à rua, ou sobem às varandas, os vivos e os mortos, todos os que, em algum momento, caminharam na longa fila até ao Senhor Jesus da Piedade. Na cidade onde nasci, aprende-se a entrar no outono desta forma. Sinto que fiquei treinado: conheço bem a que sabe o fim do verão e o início da chuva. Não me dói em nenhum osso, nem em nenhum sentimento, o princípio do frio e dos nevoeiros. Talvez por isso o outono exerça sobre o meu corpo um efeito particular, impossível em qualquer outra estação.

Sinto que fiquei treinado: conheço bem a que sabe o fim do verão e o início da chuva. Não me dói em nenhum osso, nem em nenhum sentimento, o princípio do frio e dos nevoeiros.

Quase sempre os rituais se desenvolvem em torno dos solstícios, ou dos equinócios; celebram as novas colheitas, os novos frutos, as novas cores, despedindo-se das antigas. São exercícios de entrar nas estações, de aprender a habitar o tempo, a partida e a chegada, a vida e a morte. Para quem vive longe destas dinâmicas comunitárias (porque a arte de entrar nas estações está em vias de extinção) há itinerários alternativos.

Cada pequeno capítulo do livro de Henry David Thoreau, Maçãs Silvestres & Cores de Outono (editado e traduzido na Antígona) pode ser lido como um exercício de iniciação à estação do outono. A paisagem não é a nossa (trata-se de descrever a flora característica de algumas zonas dos Estados Unidos da América) mas as cores são-nos familiares. Uma primeira parte é inteiramente dedicada às maçãs silvestres, «um fruto selvagem» que exige «um paladar selvagem». A propósito delas (como, aliás, a respeito de tudo o resto) Thoreau tece curiosas narrativas, certo de que a investigação botânica não pode prescindir dos modos de relação que o homem e a mulher foram estabelecendo com o mundo em torno. Numa segunda parte, o seu livro traz para junto do leitor a erva púrpura, o bordo-vermelho, o ulmeiro, o bordo-sacarino, o carvalho-vermelho. É uma outra via de acesso privilegiado à estação, agora que começa outubro, o mês das folhas pintadas. «Outubro é o mês das folhas pintadas. Agora o seu fulgor ilumina o mundo. Tal como os frutos, as folhas e o próprio dia adquirem matizes radiosos antes de caírem; o mesmo acontece com o ano perto do seu termo. Outubro é o seu céu ao pôr-do-sol, e novembro o seu crepúsculo tardio» (Thoreau).

 

Fotografia: Margarida Alvim

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.